Crônica – Manifesto (Um Deus-Morte?)

Que diferença há entre um campo de concentração, um tribunal ou uma clínica de aborto? Uma mãe que tem autorização de matar um feto, fruto de uma relação indesejada, está cumprindo o mesmo ritual de limpeza genética.

O conceito de crime muda de acordo com as leis vigentes de cada época, sociedade ou cultura. O que é crime em uma delas, pode não ser na outra. E vice-versa, a recíproca é verdadeira etc. e tal. Portanto, a definição de criminoso, também . Em regimes militares, o criminoso pode ser aquele que não concorda com as regras militares estabelecidas. Em “1984”, George Orwell cita o “Crimidéia”, o crime de pensar.

Hoje, no Brasil existe uma polêmica sobre liberação do aborto. Na “América Terra da Liberdade”, em alguns estados em que existe pena de morte, são mortos mais infratores da lei (criminosos) do que nos regimes chamados “inimigos da liberdade”. O Iraque, por exemplo. E o que faz com que uma gestante mate seu filho não desejado, porque concebido de maneira indesejada – e que júris e juizes condenem a cadeira elétrica e câmara de gás, pessoas que segundo o seu julgamento cometeram crimes. Morte é morte! Crime é Crime! Assassinato é assassinato! Não tem meio termo.

Os nazistas que mataram milhões, escudados em conceitos de pureza racial, achavam que estavam causando uma limpeza genética e ética e hoje são tachados de monstros. Todos os dias em tribunais e clínicas médicas do mundo, infratores e crianças são mortos escudados em conceitos como serem indesejados por suas mães e sociedades. Esses conceitos criados pelos próprios. E são tachados de mães e juízes.

Que diferença há entre um campo de concentração, um tribunal ou uma clínica de aborto? Uma mãe que tem autorização de matar um feto, fruto de uma relação indesejada, está cumprindo o mesmo ritual de limpeza genética.

A hipocrisia dos governos mundiais em permitir abortos é a mesma em fazer mirabolantes campanhas publicitárias contra a violência e tolerar fábricas de armamentos. Está certo: uma pedra, um garfo ou mesmo uma flor podem ser instrumentos de morte. Mas a diferença é que estes não são construídos com esse propósito. Um revólver, sim, é construído com o único propósito de tirar vidas.

E os governos mundiais permitem que empresários continuem com suas fábricas abertas, ganhando dinheiro – e arrecadando impostos, que vão ajudar a bancar gordas campanhas publicitárias contra a violência.

Theodore Kaczynski, 55 anos, ex-professor de matemática foi preso em 3 de abril de 1996, acusado de ser o Unabomber e ter causado a morte de 3 pessoas e ferido 255, entre 1978 e 1995 usando cartas-bomba. Isso dá uma morte a cada menos de 6 anos e um pouco mais de um ferido por ano ou 1 a cada 2 anos de sua vida. Se ficarem provados seus crimes, ele poderá ser condenado a morte. Muitas mulheres fizeram mais de 3 abortos em 17 anos. Muitos juízes condenaram a cadeira elétrica mais do que isso ao mês. E nenhum deles será condenado a cadeira elétrica, e a mídia nem se importa.

Quantas crianças são mortas de desnutrição causada por omissão da sociedade que gasta dinheiro discutindo e implantando assassinatos legais – aborto e pena de morte?

É claro que vivemos em uma sociedade hipócrita, em que defendemos a liberdade de expressão até que alguém com ela nos atinja, a liberdade sexual até vermos nossas esposas e filhas serem seduzidas, os ladrões até sermos assaltados. O aborto até sermos abortados! A pena de morte porque ainda não fomos condenados!

O maior crime da igreja, especialmente a católica, foi a pregação da morte: Cristo morreu para salvar a humanidade, a afirmação de que apenas após a morte teremos a paz do reino de Deus. A raça humana, dita cristã passou a ter a morte como único e verdadeiro instrumento de libertação. Os pobres sofriam mas tinham na morte a sua esperada recompensa. E isso sempre deu aos ricos e aos ateus, uma espécie de imunidade.

Segundo o livro sagrado dos cristãos, Deus entregou à morte seu único filho para salvar a humanidade. Isso é colocado como prova do amor Deus para com a humanidade. Mas a retórica é estranha, porque o filho não é o filho, mas Ele próprio, o Verbo Encarnado. Portanto, Ele teria cometido suicídio?

Da mesma forma que o conceito social de morte, crime e criminoso, também o religioso e o esotérico são mutáveis e mutantes. Existem relatos históricos de sacrifícios de animais e humanos – até de pais sacrificando filhos – por seitas e religiões das mais tradicionais. Livros sagrados colocam esses crimes e criminosos como personagens a serviço de Deus.

Todas as religiões sempre têm a morte como sentido de libertação e purificação. E todas são unânimes e, afirmar que somente Deus tem o direito de tirar a vida. Seria Deus então, um assassino fora de qualquer lei, porque Ele é a Lei? Não é possível conceber racionalmente tal coisa. Deus – algum – causa a Morte! Deus – é – cria a Vida! Não a destrói. Deus – algum – é assassino!

Os conceitos religiosos impregnados faz com que sacerdotes, juízes, médicos, unabombers, nazistas etc. sintam-se, em suas loucuras, como Deus. E todos os seres humanos querem ser o Deus que os criou. E já que Deus pode tirar vidas, aquele que também o faz sente-se, portanto, também Deus.

Portanto é preciso rasgar os livros e escrituras ditas sagradas que falam que Deus pode tirar a vida, retirar este conceito de todas as igrejas, para que os homens parem de querer matar para se sentirem como Deus.

O que é ser um assassino ou criminoso, hoje? Quem é? O Unabomber? Kevin Mitnick? Pense em quem você considera o maior criminoso. Depois, acima de qualquer biografia – que poder ter sido mau ou bem intencionalmente deturpada – procure dentro de sua consciência imaginar sua parte humana, pense quantas vezes você mesmo pensou em matar alguém, pela única razão – e não existe outra – dessa pessoa ser diferente de você.

As pessoas são movidas por razões e não pela razão, alguém já disse. Entre o desejo de matar e o matar. Entre o desejo de estuprar e estuprar. Entre o desejo de fazer sexo com a mãe, o pai ou os filhos e fazer. Entre o desejo de matar e o suicídio. As razões, e não a razão que nos impedem ou impulsionam a fazê-lo.

Ninguém socialmente educado chama de assassino um animal que mata um outro animal em defesa de seu alimento, território ou fêmea. Ou por qualquer outra razão ou razões. É dito que o animal é irracional, portanto está fora dos conceitos sociais e religiosos. Mas na prática todos os animais, também matam e não são chamados de assassinos, nem condenados a cadeira elétrica. Como ninguém chama de instinto de sobrevivência um ser humano que comete o mesmo ato. É uma questão de conceitos. E palavras.

Quando nascemos, efetuamos um pacto sinistro com a morte: viveremos, bem ou mau, mas viveremos. Até o dia em que ela resolver pegar a sua parte no pacto.

Hoje, data em que este ensaio está sendo escrito, 9 de outubro de 1997, é “comemorado” o trigésimo “aniversário” de morte de Che Guevara. Ele morreu por seu ideal (?)

Antes se matava e morria por paixão e ideal. Hoje parece que paixão e ideal não justificam mais morrer. Nem viver.

Janis, Hendrix, Morison, Che, Raul, Torquato, Cazuza, morreram após viverem intensamente seus ideais(?). Antes se vivia e morria por paixão e ideais. Hoje se vive sem eles e se morre por falta deles.

Quando foi que a raça humana matou seu último ideal? Quem foi que o assassinou? Cadeira elétrica para o assassino dos ideais da raça humana!

Que espécie de sociedade mórbida encontraremos em nosso futuro? Qual serão os conceitos de morte, crime e assassinato? A quem será dado o direito de matar? Aos computadores, ditadores, cantores, atores? A Deus, ao Diabo, às putas, às freiras? A qualquer um deles, mas com certeza, aos fabricantes de armas, cadeiras elétricas, câmaras de gás etc.

Essa sociedade caminha para a antropofagia. Não estética, mas real. Uns comerão os cérebros e os fetos dos outros. As mães comerão suas crias. Em nome da estética da liberdade , os fetos serão mortos nas barrigas de suas mães. Em nome da estética do prazer, este só existirá bem remunerado. Em nome da estética do poder, a vida só existirá em lembranças e a raça humana será exterminada.

A ganância dos poderosos condena a morte social milhões de seres humanos. Crianças sem comida, sem escola, sem futuro.

A mão perversa dos poderosos tem mais sangue humano do que em todas as penitenciárias do mundo.

E os donos das fábricas de armas e os governantes que as toleram, não são condenados sequer a prisão perpétua. Deus sempre representou a morte e a estética da morte sempre foi o estandarte de toas as religiões.

Deus é todo poderoso. E todo poder é assassino. Quantos ossos humanos foram quebrados, queimados em inquisições religiosas e guerras santas?

É preciso exterminar, condenar a morte, o conceito do Deus-Morte.

Estamos fadados a morrer sem distinguir o conceito de Morte.As fábricas de Deus-Morte e de armas de morte, continuarão a fabricar seus produtos, com suas mãos cheias de sangue e dinheiro.

Ainda bem que minha mãe não cometeu aborto!

10/9/1997

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

5 1 Vote
Article Rating
Assinar
Notificação de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários