Arquíloco, o Livro – 1981

Em Janeiro de 1981, com o mimeógrafo emprestado e os braços de um casal de amigos, editei um livro de poesia que tinha o nome de Arquíloco. O nome, em homenagem ao poeta-soldado grego, tinha cinquenta poemas escritos entre 1977 e 1980, sendo que o ultimo deles, feito no dia seguinte ao assassinato de John Lennon, em Dezembro de 1980. O nome do autor que eu escolhera usar na época era “Carlos Cichetto”, abolindo o Luiz… Muito antes da metamorfose que me transformaria em “Barata”.

O mimeógrafo a álcool era a única forma que tínhamos de difundir nossos trabalhos naquela época, num processo cansativo de datilografar o stencil, sem errar, colocar cada original no aparelho e girar a manivela “imprimindo” individualmente cada folha, de um lado; depois colocar tudo de volta cuidadosamente e repetir o processo para imprimir o verso.. Uma noite inteira para montar um livro e uns dois dias de dores nos braços pelo esforço.

Meu livrinho teve a “estrondosa” tiragem de 50 exemplares que foi toda gratuitamente distribuída por Correio e na porta de teatros e ruas. Eram 50 poemas, que chegou a chamar a atenção de um critico literário do extinto jornal paulistano Diário Popular. Entretanto, as necessidades e pressões fizeram com que o que restou disso, incluindo os originais fossem jogados no lixo.

Mas, durante os últimos mais de 30 anos, minha mãe guardou zelosamente o exemplar que dei na época a ela. E agora o estou reconstituindo, com muita dificuldade, pois, apesar do zelo materno, a impressão quase que desapareceu por completo. São poemas de uma época marcante, mas que talvez só tenham valor histórico, pois muitos não possuem qualquer qualidade literária, escritos na ânsia dos meus vinte e poucos anos.

O propósito, ao resgatar esse trabalho é o registro de minha história como poeta, iniciada no inicio daquela década, marcada por uma forte repressão política, falta de dinheiro e de recursos para se mostrar qualquer trabalho artístico. Arte era quase sempre atrelada à subversão e punida com tortura e morte. Liberdade era coisa proibida, mesmo que só como palavra. Éramos completamente órfãos de conceitos estéticos, abandonados num mar de incertezas e dúvidas. Mas tínhamos ideais artísticos, tínhamos sonhos políticos. Acreditávamos e lutávamos pelo que acreditávamos.

Mas hoje, ao olhar de lado e perceber as possibilidades que a tecnologia nos proporcionou, mas que feito um monstro engoliu uma salada de ideologia, sonhos e pensamentos individuais, transformando a maior parte da humanidade numa massa estéril. Tínhamos apenas mimeógrafos e máquinas de escrever, mas decerto éramos mais humanos.

E é em homenagem à humanidade que um dia tivemos o resgate desse pequeno e inútil livro. E de fato, trocaria toda a tecnologia hora existente por um pouco mais da humanidade que tínhamos em 1981.

Luiz Carlos Cichetto, AKA Carlos Cichetto, AKA Barata Cichetto

24/03/2013

Arquíloco
Carlos Cichetto
1981 – Mimeografado

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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