Artigo – Cruz e Sousa: O Cisne e o Trem

“Tu’alma lembra um mundo inaccessível
Onde só astros e águias vão pairando,
Onde só se escuta, trágica, cantando,
A sinfonia da Amplidão terrível!

Alma nenhuma, que não for sensível,
Que asas não tenha para as ir vibrando,
Essa região secreta desvendando,
Falece, morre, num pavor incrível!

É preciso ter asas e ter garras
Para atingir aos ruídos de fanfarras
Do mundo da tu’alma augusta e forte.

É preciso subir ígneas montanhas
E emudecer, entre visões estranhas,
Num sentimento mais sutil que a Morte!”
(Mundo Inaccessível – Cruz e Sousa)

É quase noite fechada na pequena cidade de Antônio Carlos, interior de Minas Gerais, quando o trem negro apita e deixa a estação com destino à Capital Federal do Rio de Janeiro. Acionando a alavanca, o maquinista faz com que as rodas daquele monstro de metal alimentado pelas fornalhas, engula um a um os pedaços dos trilhos de aço dentro da noite escura. A fumaça da chaminé se mistura às nuvens escuras e seu apito se confunde com os pios das corujas que caçam ratos. Dentro desta centopéia moderna, pessoas engolidas pela indiferença crítica dos últimos anos do século XIX. O vagão de cargas, acostumado ao cheiro da bosta de cavalo, agora recende a cheiro de morte, carregando o corpo de um homem morto pela tuberculose. Nos bolsos do terno daquele funcionário, arquivista da estrada de ferro, centenas de poemas rabiscados.

Centenas de quilômetros depois, ao chegar à estação da capital do Império, o monstro metálico vomita sobre a plataforma a urna funerária. De pé, amigos de jogos, sonhos e poesia, vindos de todas as partes e de todos os tempos do mundo, que chegaram para prestar a ultima homenagem a um dos maiores poetas daquele Brasil, que nem hoje ou não mais hoje, acredita na poesia como forma mais profunda de expressão do ser humano.

E ali estão, com seus ternos, cartolas ou calças de brim, poetas e amigos como Charles Baudelaire, Stephane Mallarmé e Paul Verlaine, que vieram da França imediatamente ao saber do falecimento do amigo. Da África, deixando de lado suas lides de mercenário e lembrando ser ainda um poeta, chegara Jean-Nicholas Arthur Rimbaud, que logo declama com eloquencia: “O poeta é um vidente por um longo, imenso e irracional desregramento de todos os sentidos”.

Sempre tendo pousado nos ombros um Corvo Negro, Edgar Allan Poe apenas balança a cabeça e dá um gole numa garrafa de bebida, enquanto O Corvo grasna: “Never More!… E nada mais”. Da cidade natal do morto, Nossa Senhora do Desterro, o amigo e também poeta Juvêncio de Araújo Figueiredo chega proferindo a sua sentença: “Seus grandes olhos negros em fundo de opala guardavam doçuras inefáveis, mas possuíam quase sempre certo ar de tristeza. Eram um misto de sombra, de sol e de luar”. Com enormes bigodes e suíças, parado e silencioso em um canto, um outro poeta, filho de um polonês com uma negra, de sobrenome Leminski, que de barco partira de Curitiba na manhã daquele dia. 

Acompanhados de outro amigo, José do Patrocínio, o cortejo ruma ao Cemitério de São Francisco Xavier onde o corpo magro e debilitado de João da Cruz e Sousa é sepultado. O Dante Negro, poeta que trouxe o Simbolismo ao Brasil estava morto. E alguém dentre aqueles poucos amigos lembrou seu testamento e a plenos pulmões leu, antes da ultima pá de terra cobrir o caixão: “Que importa que morra o poeta? Importa que não morra o poema!”. Um negro silêncio tomara conta daquela existência, de um peito dilacerado pelas injustiças das portas fechadas, da indiferença preconceituosa e de uma morte organizada pela pobreza, inveja e intolerância. Estava terminada uma existência de angustia e sofrimento, de musicais poemas escritos com lágrimas e sangue. Estava terminada a existência de um poeta. E também morta uma grande parte da poesia. E então, também vindo de um outro tempo e outro lugar, bradei eu à beira do sepulcro: “Muito importa que morra um poeta, pois com ele morre também um pouco da poesia!”.

Cruz e Sousa, o simbolista, o abolicionista, o incompreendido e subjugado, agora não mais desfilaria pelas ruas do Desterro ou do Rio de Janeiro sua elegância e altivez, não mais as gravatas de nós estilo “Rossini” enfeitariam o peito do homem que, muito mais que vitima de preconceitos raciais, fora sim, vitima de algo muito maior: a discriminação pela inveja que ocorre contra qualquer homem consciente de seu próprio valor e que luta contra ela com todas as suas forças, mas que sucumbe diante da covardia dos espectadores impassíveis.  O Cisne Negro soltara agora seu ultimo canto.

Quando a notícia chegou a Gavita Rosa Gonçalves, a esposa que ele conhecera às portas de um cemitério, ela nem conseguiu entender ou chorar. A loucura a mandara a um mundo distante dentro de sua própria mente. E pouco lhe se lhe dizia a morte e tão pouco lhe falava a poesia. Três filhos pequenos que não alcançariam a adolescência e ainda no ventre outra criança que ainda herdaria o nome de pai e que seria a continuação da maldição de dor e tristeza paternas, e que também estaria morto antes de completar os 20 anos.

E naquele triste dia de Março de 1898, de cabeças baixas, poetas, amigos e o que sobrou da Poesia, deixaram o cemitério, retornando aos seus lugares no tempo e no espaço, sabendo que ali enterrado, estava não apenas o corpo negro e debilitado de um dos maiores poetas e uma das vozes subterrâneas mais eloquentes, belas e fortes do Brasil, mas também que sob aquela terra apodrecia, um pouco da própria Poesia.

E de volta aos trilhos que o levariam novamente à cidade de Antonio Carlos, o trem negro apitou e tornou a engolir quilômetros e quilômetros de trilhos. Mas as cinzas negras de sua chaminé não mais alcançavam o céu, e as nuvens choravam as lágrimas da Poesia. Os cavalos agora tomavam o lugar do defunto e o cheiro era apenas de esterco. Não havia mais cheiro de poesia nem de morte naquele vagão escuro e os cavalos relinchavam bradando à noite, encobrindo o piado das corujas que com suas asas e garras não mais caçavam ratos, mas homens.

18/02/2012

João da Cruz e Sousa
Pais: Guilherme da Cruz, mestre-pedreiro, e Carolina Eva da Conceição
Nascimento: Nossa Senhora do Desterro, (Atual Florianópolis) – SC, 24 de novembro de 1861. Em 1890 transfere-se para o Rio de Janeiro
Casamento: Gavita Rosa Gonçalves, 09 de novembro de 1893
Falecimento: 19 de março de 1898
Filhos: Raul, Guilherme, Reinaldo e João (Nascido após a morte do pai)

Livros Publicados:
“Broquéis” (1893)
“Faróis” (1900)
“Últimos Sonetos” (1905)
“O Livro Derradeiro” (1961).
Poemas em Prosa:
“Tropos e Fanfarras” (1885) (Em Conjunto com Virgílio Várzea)
“Missal” (1893)
“Evocações” (1898)
“Outras Evocações” (1961)
“Dispersos” (1961)

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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