Artigo – Edifício Joelma – Memória Viva

Passava um pouco das oito e meia da manhã de uma sexta-feira comum em São Paulo. O dia era 1º de Fevereiro de 1974 e eu tinha descido no terminal de ônibus do Parque D. Pedro II e me dirigia ao inicio da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio a fim de tomar um ônibus em direção a Avenida Paulista, onde faria uma entrevista para um novo emprego. A caminhada a pé, subindo pela Rua General Carneiro e cruzando o Largo São Francisco, local da imponente Faculdade de Direito demorara cerca de uns 15 minutos, quando atingi o Viaduto Brigadeiro Luiz Antonio, sobre a Avenida 23 de Maio. Estava um pouco atrasado e caminhava rápido quando o barulho ensurdecedor de uma explosão fez com que todos que por ali também caminhavam voltassem seus olhares em direção a um prédio imponente á direita do viaduto. Uma língua de fogo saia de uma das janelas, enorme e assustadora. E em poucas horas também se saberia: mortal.

As nove e pouco estava já no prédio da Avenida Paulista, onde era a sede de uma das empresas de maior projeção na época, a Caderneta de Poupança Delfin, para a minha esperada entrevista. Permaneci ali por pouco menos de duas horas e saí aprovado em meu novo emprego. Ao descer à ainda em obra Nova Paulista, que em breve se transformaria no centro do sistema financeiro brasileiro e no metro quadrado mais caro da América Latina, o transito caótico e as sirenes davam de fato a idéia de que algo de muito sério ocorria. E naquele momento tive a certeza de que aquela língua de fogo que vira pouco tempo antes tinha se transformado em algo dramático. Não tinha mais como apanhar um ônibus e fui caminhando em direção ao centro da cidade, pela Brigadeiro, que parcialmente interditada, era dominada por ambulâncias e carros de polícia e bombeiro subindo e descendo. Um cenário horroroso, com as pessoas andando rápido e falando alto, comentando pelas calçadas o “Incêndio do Joelma”.

O Edifício Joelma, um prédio comercial no centro da cidade de São Paulo, junto à Praça da Bandeira e à Câmara Municipal. Foi inaugurado em 1971, com vinte e cinco andares, sendo dez de garagem, localizado no número 225 da Avenida Nove de Julho, com outras duas fachadas, uma para a Praça da Bandeira e outra para a Rua Santo Antônio. Assim que foi inaugurado, prédio foi alugado ao Banco Crefisul de Investimentos. As salas e escritórios dos escritórios luxuosos eram compostos por divisórias, móveis de madeira, pisos acarpetados, cortinas de tecido e forros internos de fibra sintética e um curto-circuito em um aparelho de ar condicionado no 12° andar deu início ao incêndio que rapidamente se espalhou. Ainda naquela época as leis não exigiam a construção de escadas de incêndio e muitas pessoas morreram queimadas dentro de elevadores, banheiros e parapeitos de janela. Mas a maior parte das mortes ocorreu no telhado do edifício.  Quase 800 pessoas trabalhavam no prédio e destas, oficialmente 188 morreram, embora muita gente acredite que esse número tenha sido bem maior.

Dois anos antes, um outro grande incêndio em edifício ocorrera, o do Edifício Andraus, também no centro da cidade e a existência de um heliponto no topo do prédio e muitas vítimas foram salvas por helicópteros que se aproximavam e as resgatavam. Com certeza, as pessoas que trabalhavam do Joelma lembraram-se disso e buscaram o terraço em busca de resgate. Entretanto, o telhado desse prédio era construído de telhas de amianto sobre uma estrutura de madeira, que transformou o local numa verdadeira churrasqueira humana. O vento forte, a fumaça e a falta de equipamentos básicos de segurança no local dificultou a ação do Corpo de Bombeiros e apenas cerca de cinco horas depois foi concluído o resgate dos sobreviventes.

Quando cheguei próximo ao inicio da Brigadeiro Luiz Antonio, mais precisamente no cruzamento com a Rua Maria Paula, próximo a Câmara Municipal de São Paulo, a fumaça tomava conta do céu. O som era de sirenes e de helicópteros que voavam ao redor do prédio em chamas sem conseguir se aproximar. Desci pela Rua Doutor Falcão e cheguei bem próximo. Pessoas gritavam, choravam, bombeiros corriam de lado para o outro. E na curiosidade típica de um garoto de 15 anos permaneci ali, olhando para cima, sem saber o que pensar e fazer. Simplesmente fiquei observando. Algumas pessoas seguravam faixas improvisadas com inscrições como “Calma” e “Não Saltem”. E vi pessoas desesperadas tentando se segurar ou descer em cabos de aço que sustentavam para-raios… E despencarem das alturas em direção a morte no chão. Outras, que conseguiam deixar o prédio, cambaleando, tossindo e com parte das roupas em chamas ou feridas sendo amparadas por médicos e bombeiros. Essas cenas nunca saíram de minha cabeça e nunca mais, a não ser que pudesse efetivamente ajudar, me aproximei de algo semelhante. Os jornais do dia seguinte estampavam fotos pavorosas e ainda tenho na cabeça a capa do Jornal Folha de São Paulo mostrando o telhado do Joelma com dezenas de corpos queimados e mutilados.

Durante os anos seguintes sempre passava pelo local e acompanhei quase que diariamente as obras de reconstrução do prédio. Em 1977 conheci uma mulher que era uma das sobreviventes e que, mesmo depois de inúmeras cirurgias plásticas, ainda mantinha no rosto e nos braços as cicatrizes da tragédia. Na mente ainda as lembranças de amigos e amigas que vira morrer ao seu lado, pisoteados ou queimados e a sensação de culpa por ter sobrevivido. Era uma pessoa amarga e cheia de traumas, a ponto de entrar em crise de choro apenas com a visão de um fósforo aceso. Ela perdera o namorado e vários colegas de trabalho naquele dia e nem as terapias psicológicas conseguiam livrá-la do trauma daquela tragédia.

Ainda naquele ano, foi instaurado um processo criminal que acabou apontando a Crefisul e a Termoclima, empresa responsável pela manutenção elétrica, como principais responsáveis pelo incêndio. A conclusão foi que o sistema elétrico era precário e estava sobrecarregado. Aquela explosão e a língua de fogo saindo pela janela que eu presenciara teria sido, segundo relatos, um aparelho de ar condicionado que explodira. Além disso, os registros dos hidrantes do prédio estavam inexplicavelmente fechados, apesar do reservatório ter capacidade para 29.000 litros de água.  A tragédia, seguramente uma das maiores na cidade, forçou as autoridades a rever as leis que regem a construção civil, obrigando a construção e escadas de incêndio e instalação de portas-corta fogo, entre outras, o que fez com que esse tipo de ocorrência fosse se tornando cada vez mais rara.

Vários filmes e documentários foram feitos sobre a tragédia do Joelma. Ainda naquele ano, foi lançado o filme “The Towering Inferno” (Inferno na Torre), estrelado por Steve McQueen. Os produtores negam, mas a história embora fantasiosa, conta sobre o incêndio de um enorme edifício por negligência com o uso de material elétrico abaixo das especificações. Na época se especulou que inclusive cenas reais do incêndio do Joelma teriam sido usadas na produção cinematográfica. Em 1979 é lançado o filme “Joelma 23º Andar”, baseado em livro do médium Chico Xavier, no qual é contada a história de uma garota que morreu no incêndio. Neste como em muitos outros filmes e documentários produzidos, são usadas cenas de arquivos de emissoras de TV. Em um deles, numa tomada de câmera que mostra pessoas ao redor do prédio, aparece a imagem de um garoto olhando para cima, no momento imediatamente anterior a queda de um homem que se segurava no cabo de aço. Sou eu, esse garoto.

Durante o incêndio, 13 pessoas tentaram, mas não conseguiram, escapar por um elevador. Os corpos não identificados foram enterrados lado a lado no Cemitério São Pedro. Esse fato acabaria sendo a inspiração para o chamado “Mistério das 13 Almas Benditas”, a quem são atribuídas diversos milagres. Muitas histórias ainda endossam a “Maldição do Joelma”, afirmando que o terreno onde o prédio foi construído seria amaldiçoado, especulando-se que ali, até o final do Século XIX teria sido um pelourinho e que fantasmas de negros rondavam o local. Uma outra história de assombração alimentaria ainda mais o mito dessa tal Maldição, o caso conhecido como “Crime do Poço”.

Em 1948, havia naquele terreno uma casa que pertencia ao professor Paulo Camargo. Com ele moravam a mãe e as irmãs que ele teria matado e em seguida sepultado num poço construído no fundo da casa para esse fim. A polícia na época trabalhou com duas hipóteses que seriam os motivos do crime: a primeira seria o fato da mãe e das irmãs não terem aprovado uma namorada dele e a outra de que a mãe e as irmãs estivessem muito doentes e o professor não quisesse cuidar delas. A polícia descobriu o crime por meio de denúncias relatando o desaparecimento de inúmeras mulheres no local. Descoberto, o professor se matou. O fato é que estas e outras lendas aliadas com a idéia de se estar no lugar de uma tragédia tão imensa, fez com que, mesmo depois de reformado e se transformar num prédio extremamente seguro, o Joelma nunca teve sua ocupação total.

Acostumados às tragédias modernas, não nos damos conta da imensidão de algo como o incêndio do Joelma, mas há praticamente quarenta anos, ela consternou uma cidade inteira, paralisando-a por completo e durante muito tempo gerou pavor nas pessoas, a ponto de muitas pessoas terem mudado de emprego e residências em prédios por medo. A tragédia ficou encalacrada nas mentes de todos durante muitos anos e até agora, ao recorrer às imagens, cenas e sons daquele dia de Fevereiro de 1974, uma sensação de desespero e dor tomam conta de mim. O cheiro daquela fumaça misturada ao de corpos humanos queimados, o som das sirenes e dos gritos e choros, e as cenas de pessoas caindo ou se jogando de um prédio em chamas, ainda estão vivas em minha mente. E sempre estarão.

20/11/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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