Conto – A Barata de Kafka

Aquela noite, o Dr. Franz chegou a sua residência confortável em Praga. Sua irmã apanhou mecanicamente seu chapéu e sobretudo e colocando-os no mancebo junto à porta de entrada. O pai, como sempre fazia sequer ergueu seus olhos do livro que lia, do mesmo jeito que a mãe nem ergueu os dela da costura.

Como de costume, dirigiu— se o seu quarto e sentou— se á escrivaninha, tamborilando os dedos sobre o madeiro. O matraquear do relógio era uma tortura e o advogado levantou— se e travou os ponteiros. Mas outro matraquear estranho ainda interrompia o silêncio daquele quarto com cheiro de mofo e solidão.

O advogado olha aos lados e enxerga aquele pequeno ser marrom-avermelhado que permanece no canto da mesa balançando suas antenas. É o único movimento e a única coisa a quebrar o nada absoluto daquele momento. Ambos ficam ali, olhando um ao outro, intermináveis minutos. O que passaria nas cabeças daqueles seres, o advogado e a barata?

O Dr. Franz, sobranceiro. Decide quebrar o silêncio:

— Gregor, meu amigo! – Exclama num tom de cordialidade. — É você? Pensei que fosse Elli… Sabe amigo Samsa, em muitos momentos gostaria de ser você. Estou farto das ameaças de meu pai, da indiferença de minha irmã e da subserviência de minha mãe. Sou apenas bem quisto quando o assunto é bancar os luxos desta casa. Acaso algo acontecesse de realmente grave comigo e não pudesse mais bancar as despesas, estou certo que todos me deixariam á míngua ou a morte. Seria deixado a mofar neste quarto, sem nem um bocado de comida, ou quando muito, apenas isto.

Um matraqueado humano chega da sala interrompendo o diálogo daqueles dois seres. Provavelmente mais uma discussão entre Hermann, Julie e Elli.

Gregor, a barata, continua ali, apenas comprovando sua existência com o abanar das antenas. Prossegue o Dr. Franz:

— Mas você, Gregor Samsa, é uma barata, um ser tido como monstruoso e nojento, mas que tem a liberdade e sua sobrevivência asseguradas. Tenho mesmo inveja de você, amigo Samsa. Nenhuma cobrança e nenhuma hipocrisia lhe têm alguma importância. É Apenas barata, e nada mais…

Naquele momento, parecendo assustada, a barata desaparece pelas frestas da escrivaninha do advogado que apanha de um maço de papel e uma pena decidido a escrever mais um de seus livros.

— “A Metamorfose” — por Franz Kafka, escreve o advogado no frontispício.

01/09/2009

Em Agosto de 2009, recebi um texto de um de meus filhos, que explorava o universo de Franz Kafka, “Expressionismo Fantástico”; respondi a ele com outro de minha autoria “Impressionismo Fantástico”, e daí surgiram uma série de 20 pequenos contos de cada um versando sobre Kafka e sua obra, especialmente “A Metamorfose”, livro ao qual, entre outras coisas inspirou meu heterônimo. Pouco mais de um ano e lançávamos o que seria o terceiro lançamento da minha recém criada “Editor’A Barata Artesanal”: “Universo Expandido Ou Impressões e Expressões Baratas Sobre o Processo da Metamorfose de Kafka”. A parceria foi estendida a outro de meus filhos, que fez maravilhosas ilustrações. O livro vendeu bem, considerando-se ser uma publicação independente artesanal e a falta de apoio e divulgação, mas logo me rendeu desgostos, já que nos lançamentos eu era sempre relegado ao plano de espectador, não de editor e co-autor. Dois anos após entendi o motivo disso, quando eles exigiram que o livro não fosse mais vendido e que nada que atrelasse meu nome ao deles fosse divulgado em qualquer meio, pois eu estaria “fazendo-os passar vergonha diante dos amigos”. A razão da vergonha? A tática esquerdóide do “nós contra eles”, iniciada quando a máscara petista começou a cair. A minha parte consta nestas publicações, e o livro ainda pode ser encontrado usado à venda no Estante Virtual, com dedicatórias (menos as minhas). Alguns contos  ficaram de fora da edição original e outros foram escritor posteriormente com a intenção de uma edição solo, o que nunca ocorreu.

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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