Conto – A Incrível Barata Que Encolheu

— Acorda, K! Acorda, sua barata inútil! Ou pensas que vais passar o resto da sua vida com as patinhas para cima enquanto as contas se acumulam? Levante-se agora!!!

K. resmungou um pouco consigo mesmo, mas já estava acostumado com o tratamento a ele dado, desde aquela manhã em que acordara transformado em um inseto…

Sua monstruosidade aparente, patas pegajosas que podiam escalar paredes e antenas, não era o que fazia com sua família se afastasse dele, mas sim a constatação de que ele, K., a partir daquela manhã fatídica era um ser que, estando além da espécie humana, não podia mais ser controlado. Como advogado K. podia ser controlado por todos as estâncias e células da sociedade humana incluindo ai sua própria família, mas como barata, não.

E a partir daquela hedionda metamorfose, K. conseguira o que qualquer ser humano deseja: era totalmente livre.

Então K. colocou-se em pé sobre suas seis patas, agitou suas antenas e saiu pelas frestas da tela que fora colocada por seu pai em seu quarto com a intenção justamente para impedir a entrada de insetos. Do lado de fora, olhou em direção ao infinito e desapareceu na imensidão. E desde esse dia, K. nunca mais foi visto.

01/09/2009

Em Agosto de 2009, recebi um texto de um de meus filhos, que explorava o universo de Franz Kafka, “Expressionismo Fantástico”; respondi a ele com outro de minha autoria “Impressionismo Fantástico”, e daí surgiram uma série de 20 pequenos contos de cada um versando sobre Kafka e sua obra, especialmente “A Metamorfose”, livro ao qual, entre outras coisas inspirou meu heterônimo. Pouco mais de um ano e lançávamos o que seria o terceiro lançamento da minha recém criada “Editor’A Barata Artesanal”: “Universo Expandido Ou Impressões e Expressões Baratas Sobre o Processo da Metamorfose de Kafka”. A parceria foi estendida a outro de meus filhos, que fez maravilhosas ilustrações. O livro vendeu bem, considerando-se ser uma publicação independente artesanal e a falta de apoio e divulgação, mas logo me rendeu desgostos, já que nos lançamentos eu era sempre relegado ao plano de espectador, não de editor e co-autor. Dois anos após entendi o motivo disso, quando eles exigiram que o livro não fosse mais vendido e que nada que atrelasse meu nome ao deles fosse divulgado em qualquer meio, pois eu estaria “fazendo-os passar vergonha diante dos amigos”. A razão da vergonha? A tática esquerdóide do “nós contra eles”, iniciada quando a máscara petista começou a cair. A minha parte consta nestas publicações, e o livro ainda pode ser encontrado usado à venda no Estante Virtual, com dedicatórias (menos as minhas). Alguns contos  ficaram de fora da edição original e outros foram escritor posteriormente com a intenção de uma edição solo, o que nunca ocorreu.

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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