Conto – Emoções Baratas

Milena Felice acordara certa manhã sentindo— se transformada em um monstruoso inseto. Era esta a sensação que tinha a seu próprio respeito. Afinal era monstruoso o sentimento que tomara conta de sua alma, e mais monstruoso ainda os desejos que se apossavam de seu corpo.

Foi até a cozinha e preparou seu café. Sentou— se em uma das duas cadeiras que ocupavam o cômodo e esperou ansiosa a chegada de seu amante. Tormentas e culpas ocupando sua mente, pecados impostos. Mas, no entanto, Felice Milena afastou todas aqueles sentimentos que a separavam de seu real desejo e amor. Dissesse o que dissesse sua consciência moral ela se entregaria àquela paixão que a dominava por inteiro.

Mas, ficou olhando ao redor esperando que ninguém aparecesse ali e que pudesse lhe censurar… Nesse momento seus olhos fitaram a razão de seus desejos e todos os pensamentos negativos desapareceram. Milena Felice estava diante do ser que mais desejara em sua existência e nada, nem ninguém iriam afastá-la dele.

Um sinal de cabeça e Felice Milena se dirigiu ao quarto seguida de seu cobiçado amante. Retirou toda a roupa, saia, blusa, meias, calcinha. E completamente nua deitou— se sobre os lençóis brancos e cheirosos. A cabeça sobre o travesseiro de plumas. Abriu lentamente as pernas e acariciou as coxas, arfando e gemendo de desejo.

Nesse instante, o amante passa a deslizar sobre as coxas e seios de Milena Felice até que penetra em sua vagina molhada de desejo. E quanto isso acontece, Felice Milena explode em um prazer nunca experimentado, delícias incontroláveis e um gozo que expande todos os seus sentidos e que dá à sua alma um sentido completo e verdadeiro.

Mas nesse momento, em que Céu e Inferno eram apenas uma coisa dentro da mente de Milena Felice, adentra ao quarto Max, o marido. E apanhando de um exemplar de “A Metamorfose” que jazia sobre a cabeceira da cama, esmaga aquela barata que deslizava sobre as coxas nuas de sua esposa Felice Milena, que ainda tem tempo de gritar, antes de desmaiar:

— Não! Gregor!!!!!!!!!!! Não!!!!!!!!!!!

01/09/2009

Em Agosto de 2009, recebi um texto de um de meus filhos, que explorava o universo de Franz Kafka, “Expressionismo Fantástico”; respondi a ele com outro de minha autoria “Impressionismo Fantástico”, e daí surgiram uma série de 20 pequenos contos de cada um versando sobre Kafka e sua obra, especialmente “A Metamorfose”, livro ao qual, entre outras coisas inspirou meu heterônimo. Pouco mais de um ano e lançávamos o que seria o terceiro lançamento da minha recém criada “Editor’A Barata Artesanal”: “Universo Expandido Ou Impressões e Expressões Baratas Sobre o Processo da Metamorfose de Kafka”. A parceria foi estendida a outro de meus filhos, que fez maravilhosas ilustrações. O livro vendeu bem, considerando-se ser uma publicação independente artesanal e a falta de apoio e divulgação, mas logo me rendeu desgostos, já que nos lançamentos eu era sempre relegado ao plano de espectador, não de editor e co-autor. Dois anos após entendi o motivo disso, quando eles exigiram que o livro não fosse mais vendido e que nada que atrelasse meu nome ao deles fosse divulgado em qualquer meio, pois eu estaria “fazendo-os passar vergonha diante dos amigos”. A razão da vergonha? A tática esquerdóide do “nós contra eles”, iniciada quando a máscara petista começou a cair. A minha parte consta nestas publicações, e o livro ainda pode ser encontrado usado à venda no Estante Virtual, com dedicatórias (menos as minhas). Alguns contos  ficaram de fora da edição original e outros foram escritor posteriormente com a intenção de uma edição solo, o que nunca ocorreu.

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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