Conto – Infestação

Há tempos que eu vinha perseguindo um ser que cismara em tomar conta de meu sossego, destruindo meu sono e minha paz.

Era impertinente aquele ser. Teimoso ao extremo ao tentar fugir de minha perseguição. Há noites seu ruído não me permitia dormir e eu tinha agora por ponto de honra persegui— lo e exterminá-lo.

Pensei em formas das mais simples até táticas de guerrilha urbana, mas á todas elas aquele ser monstruoso conseguia escapar. Mas daquele dia não passaria e eu estava disposto a ir até as últimas consequências para acabar com ele.

Uma armadilha de profunda eficiência dotada de uma isca infalível segundo o vendedor da loja, foi colocada próximo ao local onde aquela monstruosidade costumava passear a noite, em busca de satisfazer suas necessidades. Sentei— me confortavelmente e esperei. Apanhei um livro aleatoriamente na estante e comecei a ler meio sem concentração, pois toda a minha atenção estava voltada á destruição do incômodo, de meu demônio particular.

Quando o sono já começara a dominar minha mente, escuto primeiro um matraquear insolente seguido de um som que eu nunca escutara. Levantei sorrateiramente da poltrona e me encaminhei ao local onde deixara a armadilha. Lá estava ele, complemente dominado e em estado de torpor. Notei que ao contrário de nós ele não tinha três, mas dois pares de patas e sua cabeça era desprovida de nossa indispensável antena. De um golpe certeiro esmaguei aquele ser monstruoso e inútil que comumente chamamos de ser humano e voltei a me concentrar em meu livro: A Metamorfose, de Franz B., onde uma barata acorda certa manhã transformada em um ser humano monstruoso.

01/09/2009

Em Agosto de 2009, recebi um texto de um de meus filhos, que explorava o universo de Franz Kafka, “Expressionismo Fantástico”; respondi a ele com outro de minha autoria “Impressionismo Fantástico”, e daí surgiram uma série de 20 pequenos contos de cada um versando sobre Kafka e sua obra, especialmente “A Metamorfose”, livro ao qual, entre outras coisas inspirou meu heterônimo. Pouco mais de um ano e lançávamos o que seria o terceiro lançamento da minha recém criada “Editor’A Barata Artesanal”: “Universo Expandido Ou Impressões e Expressões Baratas Sobre o Processo da Metamorfose de Kafka”. A parceria foi estendida a outro de meus filhos, que fez maravilhosas ilustrações. O livro vendeu bem, considerando-se ser uma publicação independente artesanal e a falta de apoio e divulgação, mas logo me rendeu desgostos, já que nos lançamentos eu era sempre relegado ao plano de espectador, não de editor e co-autor. Dois anos após entendi o motivo disso, quando eles exigiram que o livro não fosse mais vendido e que nada que atrelasse meu nome ao deles fosse divulgado em qualquer meio, pois eu estaria “fazendo-os passar vergonha diante dos amigos”. A razão da vergonha? A tática esquerdóide do “nós contra eles”, iniciada quando a máscara petista começou a cair. A minha parte consta nestas publicações, e o livro ainda pode ser encontrado usado à venda no Estante Virtual, com dedicatórias (menos as minhas). Alguns contos  ficaram de fora da edição original e outros foram escritor posteriormente com a intenção de uma edição solo, o que nunca ocorreu.

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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