Conto – O Retrato de Gregor Samsa

Muito jovem, belo e rico, Gregor Samsa desperta a atenção de um pintor de nome Franz K. que embevecido por aquela beldade decide pintar seu retrato. Depois de relutar e tornar a tarefa do artista um martírio e um prazer, Gregor pode contemplar sua vaidade e egoísmo retratados na obra do artista

Ao apreciar sua imagem pintada na tela, o hedonista e vaidoso Gregor afirma que qualquer coisa daria para que fosse a imagem refletida na tela a sofrer com as maldades da deterioração que transformariam sua pele pueril e cheia de frescor, em algo desprezível e nojento. Que daria a própria alma para fosse a ela e não a ele, na qual a passagem do tempo transformaria em algo feio e monstruoso.

A partir dai, todas as manhãs Gregor Samsa acorda do mesmo jeito, sempre belo e juvenil, sem nenhum traço da monstruosidade que o tempo perpetra, nenhum resquício da aparência de inseto que é comum nas pessoas que envelhecem. Nada na aparência de Gregor denuncia o monstro em que ele se transforma, fruto de sua vaidade e de seu cinismo com relação ao restante de uma sociedade, que finge por sua parte não perceber que aquele eterno exemplar de beleza transforma sua alma num monstruoso ser.

O pintor, apaixonado por sua obra e temente de que alguém a possa possuir e a alma de seu modelo, passa a ficar mais e mais transtornado ao perceber que as feições tão milimétrica e perfeitamente pintadas naquela tela começam a exibir traços de uma monstruosidade desesperadora e evidente.

O quadro é escondido em um porão, coberto com cortinas pesadas, isolado de todos. Espera assim o pintor esconder do mundo a monstruosidade de seu modelo, ali estampada. Uma manhã, ao adentrar o local e retirar a cobertura de sobre o quadro, depara— se o artista com uma aterradora visão. Abre as cortinas e ao penetrar da luz naquele cômodo, percebe com detalhes que a imagem pintada reflete clara e absolutamente a de um inseto monstruoso.

Enlouquecido e munido de uma faca, passa o pintor a desferir mortíferos golpes sobre o tecido do quadro, transformando em poucos segundos a pintura num amontoado de retalhos coloridos espalhados pelo chão. E é neste exato momento, em algum ponto da aristocrática cidade, que Gregor Samsa, aquele que jurara dar sua própria alma em troca de que não fosse ele, mas o quadro a se transformar em um ser monstruoso, após espasmos e dores horrorosas, passa a rastejar em direção ao esgoto, desaparecendo em meio à escuridão feito um inseto horroroso.

01/09/2009

Em Agosto de 2009, recebi um texto de um de meus filhos, que explorava o universo de Franz Kafka, “Expressionismo Fantástico”; respondi a ele com outro de minha autoria “Impressionismo Fantástico”, e daí surgiram uma série de 20 pequenos contos de cada um versando sobre Kafka e sua obra, especialmente “A Metamorfose”, livro ao qual, entre outras coisas inspirou meu heterônimo. Pouco mais de um ano e lançávamos o que seria o terceiro lançamento da minha recém criada “Editor’A Barata Artesanal”: “Universo Expandido Ou Impressões e Expressões Baratas Sobre o Processo da Metamorfose de Kafka”. A parceria foi estendida a outro de meus filhos, que fez maravilhosas ilustrações. O livro vendeu bem, considerando-se ser uma publicação independente artesanal e a falta de apoio e divulgação, mas logo me rendeu desgostos, já que nos lançamentos eu era sempre relegado ao plano de espectador, não de editor e co-autor. Dois anos após entendi o motivo disso, quando eles exigiram que o livro não fosse mais vendido e que nada que atrelasse meu nome ao deles fosse divulgado em qualquer meio, pois eu estaria “fazendo-os passar vergonha diante dos amigos”. A razão da vergonha? A tática esquerdóide do “nós contra eles”, iniciada quando a máscara petista começou a cair. A minha parte consta nestas publicações, e o livro ainda pode ser encontrado usado à venda no Estante Virtual, com dedicatórias (menos as minhas). Alguns contos  ficaram de fora da edição original e outros foram escritor posteriormente com a intenção de uma edição solo, o que nunca ocorreu.

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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