Conto – Quem Sai Aos Seus…

“Essa tua maneira de ver as coisas eu só considero certa na medida em que mesmo eu acredito que não tenhas a menor culpa em nosso alheamento. Mas também eu não tenho a menor culpa. Se eu pudesse te levar a reconhecê-lo, então seria possível, não uma nova vida — que para isso estamos ambos velhos demais —, mas o abrandamento de tuas intermináveis acusações.”

Após escrever o parágrafo acima G., um inseto de monstruosa aparência, entrega o papel ao pai que o deposita em sua escrivaninha sem sequer ler. G., um ser cuja metamorfose transformara em uma horrenda barata, encara o pai com ódio e crispando as patas sobre o que poderia se chamar de peito, começa a gritar e esbravejar:

— És um monstro, meu pai! És o grande culpado de meu infortúnio, de minha desgraça. O grande culpado desta maldita metamorfose que transformou a mim em uma mísera barata. “diante de ti perdi toda a confiança em mim; em contrapartida, recebi uma culpabilidade infinita.” E eu o culparei eternamente por ter agido de tal forma comigo, como se acaso fosses um deus. Fostes tirano, rei, regente, menos um pai e nunca respeitastes minha liberdade…

H., o pai, nada responde e apenas encara o filho com um olhar misto de piedade e cumplicidade… Um estranho, muito estranho olhar.

G., a barata, continua: transformastes— me em um “um pequeno e medroso pacote de ossos”, sempre me humilhando e tratando a mim apenas como um ser menor que o senhor mesmo. Mas agora, meu pai, agora que criei a capacidade de enfrentá-lo, a capacidade de lhe mostrar o quão pequeno és em relação a tudo aquilo que pregastes, sinto que estou forte. Afinal, sou agora um inseto, um ser monstruoso e estarei mesmo acima de todos os teus ensinamentos.

Neste momento, H., o pai, que até então nenhuma palavra proferira, solta, calmamente, apenas uma frase:

— É porque eu não queria, meu filho, que ao provardes do sabor da liberdade e do júbilo de ser livre e verdadeiramente um homem, acabastes metamorfoseado num ser igual…— H., o pai, faz uma pausa e quase entre lágrimas declara: — … a mim….!!!

Neste momento, H., o pai, em movimentos bruscos e nervosos retira as roupas e a máscara e exibe ao atônito G. as formas estranhas de um… inseto monstruoso…

01/09/2009

Em Agosto de 2009, recebi um texto de um de meus filhos, que explorava o universo de Franz Kafka, “Expressionismo Fantástico”; respondi a ele com outro de minha autoria “Impressionismo Fantástico”, e daí surgiram uma série de 20 pequenos contos de cada um versando sobre Kafka e sua obra, especialmente “A Metamorfose”, livro ao qual, entre outras coisas inspirou meu heterônimo. Pouco mais de um ano e lançávamos o que seria o terceiro lançamento da minha recém criada “Editor’A Barata Artesanal”: “Universo Expandido Ou Impressões e Expressões Baratas Sobre o Processo da Metamorfose de Kafka”. A parceria foi estendida a outro de meus filhos, que fez maravilhosas ilustrações. O livro vendeu bem, considerando-se ser uma publicação independente artesanal e a falta de apoio e divulgação, mas logo me rendeu desgostos, já que nos lançamentos eu era sempre relegado ao plano de espectador, não de editor e co-autor. Dois anos após entendi o motivo disso, quando eles exigiram que o livro não fosse mais vendido e que nada que atrelasse meu nome ao deles fosse divulgado em qualquer meio, pois eu estaria “fazendo-os passar vergonha diante dos amigos”. A razão da vergonha? A tática esquerdóide do “nós contra eles”, iniciada quando a máscara petista começou a cair. A minha parte consta nestas publicações, e o livro ainda pode ser encontrado usado à venda no Estante Virtual, com dedicatórias (menos as minhas). Alguns contos  ficaram de fora da edição original e outros foram escritor posteriormente com a intenção de uma edição solo, o que nunca ocorreu.

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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