Conto – Uma Barata Chamada Kafka

Meu nome é Franz. Franz Kafka. E sou uma barata. Tenho três pares de patas, antenas e descendo de uma espécie que existe no planeta há 400 milhões de anos. Gosto de lugares quentes e úmidos e minha alimentação é composta que qualquer coisa, orgânica ou não. Sou um ser cosmopolita e noturno. Não tenho sangue.

Mas nem sempre fui uma barata. Na verdade nasci em Praga, no final do século XIX, de descendência judia, formei— me advogado e escrevi vários livros. Em um deles, conto na verdade minha história, através da saga de um homem que em um belo dia acorda transformado em uma barata, mesmo não tendo usado esse termo em nenhum momento durante a narrativa.

O drama de meu alter-ego é verdadeiro, como foi verdadeira a minha metamorfose. Mas minha transformação não ocorreu como no livro, imediata e sem nenhuma explicação lógica. Claro que ao escrever aquele livro não achei importante declinar o fenômeno que causou minha metamorfose e principalmente porque naquele momento nem eu ainda tinha consciência dos fatos.

Mas o que importa realmente é que o fato gerador de minha metamorfose foi minha própria consciência de que, como um mesquinho e egoísta ser humano eu jamais teria transcendido os limites da minha própria mente e alma e estaria aprisionado em um corpo decadente e limitado, em estado de decomposição perene. Aprisionado em uma ditadura moral que ditaria sempre as regras que eu tinha que seguir numa hipócrita sociedade humana.

Portanto minha metamorfose começou quando eu decidi que para ser verdadeiramente Franz Kafka eu tinha que estar liberto da vaidade de ser Franz Kafka. E que sendo uma barata eu atingiria a essência da sobrevivência da minha própria alma.

01/09/2009

Em Agosto de 2009, recebi um texto de um de meus filhos, que explorava o universo de Franz Kafka, “Expressionismo Fantástico”; respondi a ele com outro de minha autoria “Impressionismo Fantástico”, e daí surgiram uma série de 20 pequenos contos de cada um versando sobre Kafka e sua obra, especialmente “A Metamorfose”, livro ao qual, entre outras coisas inspirou meu heterônimo. Pouco mais de um ano e lançávamos o que seria o terceiro lançamento da minha recém criada “Editor’A Barata Artesanal”: “Universo Expandido Ou Impressões e Expressões Baratas Sobre o Processo da Metamorfose de Kafka”. A parceria foi estendida a outro de meus filhos, que fez maravilhosas ilustrações. O livro vendeu bem, considerando-se ser uma publicação independente artesanal e a falta de apoio e divulgação, mas logo me rendeu desgostos, já que nos lançamentos eu era sempre relegado ao plano de espectador, não de editor e co-autor. Dois anos após entendi o motivo disso, quando eles exigiram que o livro não fosse mais vendido e que nada que atrelasse meu nome ao deles fosse divulgado em qualquer meio, pois eu estaria “fazendo-os passar vergonha diante dos amigos”. A razão da vergonha? A tática esquerdóide do “nós contra eles”, iniciada quando a máscara petista começou a cair. A minha parte consta nestas publicações, e o livro ainda pode ser encontrado usado à venda no Estante Virtual, com dedicatórias (menos as minhas). Alguns contos  ficaram de fora da edição original e outros foram escritor posteriormente com a intenção de uma edição solo, o que nunca ocorreu.

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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