Crônica – 1984 é Hoje

Em “1984”, escrito na década de 1940 George Orwell fala sobre um mundo dominado pelo totalitarismo, pela falta de individualidade, de sentimentos; onde uma sociedade medrosa vive vigiada pela “teletela”, uma espécie de televisão duas vias, vigiada por um ditador transcendental chamado de “O Grande Irmão”. Um mundo que criou uma linguagem chamada “novilíngua”, que consiste em diminuir ao máximo a quantidade de palavras existentes para, assim, reduzir a capacidade de raciocínio.

Nessa sociedade qualquer transgressão é tratada com o “desaparecimento” total do transgressor: qualquer referência a ele é simplesmente eliminada e, para todos os efeitos essa pessoa nunca existiu. O amor também foi eliminado. E as pessoas parecem que realmente não se importam ou não se dão conta dessa vida. E apenas vagam pela vida.

Como qualquer filme futurista, nos perturbamos no momento em que o lemos, mas depois dizemos: “Ufa! Ainda bem que isso é só ficção!”

Bem, não é bem assim, não! Se olharmos criticamente o mundo onde estamos vivendo, perceberemos que o mundo traçado por Orwell está presente. A Internet é a nossa “teletela”, onde todos somos vigiados o tempo inteiro, onde nossas vidas existem e podem ser apagadas com um simples comando “delete”. Achamos que estamos seguros e no controle, que comandamos a máquina. É assim que nosso Grande Irmão deseja que seja. Basta ver a linguagem usada em salas de bate papo, para perceber que a “novilíngua” é a linguagem corrente.

Estamos dando tecnologia em lugar de carinho aos nossos filhos; estamos dando um computador em lugar de um carinho na cabeça, e achamos que estamos garantindo o futuro deles, quando na verdade estamos é criando seres alienados, prontos a serem seres bem piores do que nós mesmos. Perdemos nossa capacidade de nos indignar, pois a tecnologia é “revolucionária”. Que revolução é essa? Quem ganhou essa guerra?

Durante muito tempo se acreditou que com o avanço da tecnologia, as pessoas teriam mais tempo para se dedicar a família e aos prazeres, mas a competição causada pela tecnologia fez com que as pessoas trabalhem mais horas, que mesmo em casa fiquem montando estratégias de como melhorar em seu trabalho etc.. E a única atenção dada aos filhos é sobre como configurar um novo jogo de computador.

É, estamos vivendo num mundo dominado pela tecnologia! Aliás, estamos mesmo vivendo? Mas cuidado ao questionar o sistema do Grande Irmão, você pode simplesmente ser banido, ter todas as suas referências “deletadas”.

Quem é o Grande Irmão? Você não sabe? Olhe do seu lado, ou mesmo para frente, ele está mais perto de você do que imagina.

3/18/2000

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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