Crônica – A Cadeira (Baseado em Fatos Reais)

Minha cadeira quebrou. Era de ferro, velha, estava enferrujada e foi soldada por um soldador pouco habilidoso. Desmontou e eu me esborrachei no chão, batendo as costas e a cabeça no piso da sala. Quase rachei a cabeça e quebrei alguns ossos das costas, mas entrei em desespero quando vi aos pedaços a minha cadeira. “Só me faltava essa agora!” Pensei enquanto jogava os pedaços no quintal, quase acertando a gata.

Minha cadeira, o que faço sem minha cadeira?  Sou agora um escritor sem uma cadeira e isso é um sério problema. Como escrever? De pé? Sentado no chão com o teclado do computador no colo? Como escrever sem ela? Como concentrar-me em pensamentos? Como acender o cigarro e apoiar os cotovelos sobre a mesa, buscando as idéias fugidias que comporão minha próxima obra? Estou aleijado, morto, sem capacidade de reação, de criação e minha inspiração parece que se partiu em pedaços, juntamente com a cadeira.

Um banco de plástico? Um banco de plástico não é uma cadeira, não a um escritor. A um escritor, uma cadeira tem que ser de fato uma cadeira. Não é a toa, que o premio máximo de um escritor é uma Cadeira na Academia de Letras. A cadeira é o trono de um escritor, onde ele exerce o papel de imperador sobre sua obra, decidindo o destino de seus personagens, matando-os ou fazendo-os amar, odiar, caminhar, matar.  E é de sua cadeira que um escritor comanda, cria ou destrói mundos  E agora, eu perdera meu poder quando meu trono, de ferro, espuma e tecido se espatifou. Tive a nítida impressão que escutei gritos quando ela se quebrou…Seriam os meus?

Minha cadeira não era comum, dessas que tem quatro pernas, era daquelas de escritório, com rodízios que deslizam. É bem possível que tenha pertencido a um escriturário entediado ou a um chefe de repartição que a usava como o trono de um rei efêmero a ditar ordens a subordinados amedrontados. Quem sabe até quantas orgias teriam acontecido sobre ela, com secretárias em busca de promoção e diretores de satisfação. Ela tinha rodas e com ela eu deslizava da mesa ate à estante em busca de algum livro importante. E como fazer isso agora, como eu poderia chegar até a estante sem as rodas mágicas da minha cadeira?

Não era cara, a minha cadeira, eu a encontrei abandonada numa calçada, abandonada, partida e rasgada. Parecia triste ali, naquela calçada, e eu a recolhi e a consertei como quem cura as feridas de um cachorro ou de uma amante. E como o dono e um cachorro ou como amantes, fomos úteis um ao outro durante anos. E parecia também que ficaríamos juntos para sempre. Mas a fadiga do velho metal e a incompetência da solda mal feita tinham colocado o fim naquela eternidade.

Mas ontem, quando eu me preparava para escrever a obra prima da minha vida, meu grande livro, minha maior história, ela estalou e quebrou, me jogando no chão frio. Maldita cadeira! Até pensei em escrever um poema ou uma crônica sobre a cadeira quebrada, mas desisti da idéia, pois quem afinal leria sobre uma cadeira quebrada? Escrever sobre uma cadeira quebrada… Ah, coisa de louco, maluco mesmo… Que escritor com alguma insanidade escreveria sobre isso? Cadeira maldita!

E então minha obra não saiu, as palavras não saíram, o livro não saiu. E estranhamente não me senti mal por isso, pois agora, ao olhar aqueles pedaços de ferro, espuma e tecido, abandonados no quintal sob a chuva e o sol, ainda penso com tristeza sobre cães feridos, sobre amantes perdidas… E sinto falta da minha cadeira.

30/11/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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