Crônica – A Sabedoria e os Seres Silenciosos

“Sábios verdadeiros são aqueles que dão o que têm, sem maldade e sem segredo.”  (True sages are those who give what they have, without meanness and without secret.) – Provérbio Egípcio

Acredito que os sábios verdadeiros seriam aqueles que conseguem dar até o que não tem… Mas como (será que endoidei?) alguém poderia dar o que não tem? O sábio verdadeiro busca o que não possui, mas não toma posse do que encontrou e entrega sem maldade nem segredo, porque o verdadeiro sábio sabe o sentido pleno de não ter vaidade e conhece plenamente a humildade.

Há muito tempo é tido como sinônimo de sabedoria o silêncio, a mudez, a quietude. Existem tantas frases “célebres” falando sobre a sapiência do silêncio, mas que se fossem de fato seguidas ao pé da letra, não passariam de geração a geração, transportando com elas os nomes de seus autores. Certo que a maioria se refere a uma espécie de silêncio “necessário” em determinadas situações, o esperar pelo momento “correto” de lançar a palavra “correta”. Mas a mim, o silêncio nunca foi sinal de sabedoria, muito pelo contrário. Normalmente as pessoas quietas são rancorosas, medrosas, hipócritas e sempre, invariavelmente, tem segredos escondidos. Normalmente são cobras que ficam enroladas esperando apenas o momento “certo” de dar seu bote. Muita gente se finge de sábio com uma mudez que disfarça a falta de conhecimento, medo de expor seus pensamentos ou simplesmente por preguiça. São cínicos, isso sim, todos eles.

O silêncio nunca é realmente necessário, a não ser aos hipócritas, aos medrosos e aos incultos. “Guarda o silêncio e o silêncio te guardará.” Essa frase é do mais puro cinismo, pois em outras palavras significa: “Tudo o que você disser pode e será usado contra você num tribunal”. Então, o Ser Silencioso se cala, com medo de que suas palavras possam ser usadas contra ele. E de fato serão. Sempre são. Nossas palavras sempre são usadas contra – ou a favor – de nós mesmos. O Ser Silencioso sempre tem medo do julgamento? Talvez não, talvez seja apenas o medo de se expor, por insegurança ou falta de conhecimento.

Mas no meio de uma multidão ou atrás de um monitor de computador, entretanto, essas pessoas tendem a tagarelar, gritar. Pois em ambas as situações a sensação de impunidade lhes encoraja. Portanto, chego a conclusão de que o Ser Silencioso nada mais é de que um covarde, nunca um sábio, pois este conhece e tem segurança de suas palavras, tem prazer em compartilhar seus conhecimentos e através da conversa, complementá-los e absorver outros, enquanto os primeiros apenas, na hipótese mais banal, apenas sugam conhecimentos, sentimentos e dados, guardando-os para usar como uma arma “no momento certo”.

E acredito então que, ao contrário do provérbio egípcio, não nos basta dar aquilo que temos, o que pode ser apenas nosso silêncio. Mas é necessário, através do falar e do escutar – nem importa em que ordem porque o que escutamos é resultado daquilo que falamos e vice-versa – buscarmos o que não temos e quando conseguirmos não guardarmos apenas ao nosso prazer e uso pessoal, mas compartilhar, entregar sem maldade nem segredo, mas com humildade. E sem a vaidade e a crueldade dos Seres Silenciosos.

27/07/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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