Crônica – A Verdadeira Cor do Racismo

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje! “  Eu Tenho Um Sonho – Discurso de Martin Luther King, Jr. , 28 de agosto de 1963

Qual a Verdadeira Cor do Racismo? Ontem, deparei com uma manchete em um Blog na Internet que me despertou a um assunto que tenho tocado muito sutilmente em meus textos, colocando-o como mais um fruto do “Politicamente Correto”, este ser fascista e desprezível que tem tomado conta da vida das pessoas e é uma praga maldita que ameaça exterminar com todo pensamento contrário às ondas ditatoriais. O assunto é “Racismo”. A manchete: “Negros são impedidos de participar da posse do Presidente do STF que os representa” postada em um blog  mantido por um desses chamados “Movimentos Negros”. ao ler a matéria, e depois buscando outras informações a respeito, entendi que o que de fato aconteceu foi o fato de que as pessoas precisam ser convidadas para participar de tal e evento e que, inclusive, vários representantes desses movimentos o foram, como de outros.

Mas o que me chama a atenção nessa frase é justamente o caráter racista dela. Primeiro induzindo ao leitor a pensar que apenas os negros foram impedidos de entrar, criando um estado de animo alterado. Segundo, e principalmente, ao terminar a frase com ” que os representa”, o editor do blog não somente foi leviano como mal informado, afinal, o Presidente do STF não representa classe ou cor nenhuma (ao menos em teoria, não) sendo a representação máxima do judiciário. E essa frase, da mais total e burra infelicidade pode ser interpretada, de acordo com o interesse do leitor, das formas mais variadas: 1 – “Tá vendo, ele é negro, mas é presidente do STF”, 2 – “Tá vendo, seu branco filho da puta, agora quem manda somos nós. 3 – “Ele é negro mas é o fodão!”  4 – “Negão estudado!” 5 – “Vamos agora á forra, pois agora temos um negro para nos defender das absurdas leis dos brancos”. Enfim, dá uma porção de interpretações essa frase infeliz, mas todas elas de cunho racista, sob qualquer cor que a coloquemos.

Há uns anos, li a biografia de Malcom X. Nesse livro, ele conta como surgiu seu ódio pelos brancos: ele tinha queimado todo o couro cabeludo depois de usar químicas a base de soda caustica para alisar os cabelos para parecer branco. De fato, Malcom, ao contrário de seu conterrâneo e contemporâneo Martin Luther King, não pregava a igualdade, mas o racismo, a supremacia negra, o anti-semitismo e a violência. Era puro ódio.

Recentemente uma entrevista com Morgan Freeman a um programa de televisão americano dividiu opiniões, por ter ele se posicionado contra o “Mês da Consciência Negra” (nos Estados Unidos é um mês inteiro e ao que me consta, não é feriado em nenhum dia). Em determinado momento, existe um diálogo: Apresentador: – “E como vamos nos livrar do racismo?” Morgan Freeman – “Parando de falar sobre isso!”. Dentro do contexto, o que ele deixava claro é que existe por si só preconceito simplesmente no fato de existir tal “data” (um mês lá e um feriado em boa parte das cidades brasileiras). Postei esse vídeo na minha rede social, com destaque a essa frase e recebi uma enxurrada de comentários ofensivos. Pessoas que leram apenas a frase e não viram a entrevista, principalmente. Um deles, principalmente me deixou emputecido: “Você só fala isso porque é branco”. Engraçado é que em nenhum momento eu lembrei da cor da minha pele quando postei isso. Outro fato curioso, foi saber que o órgão responsável por um processo pela proibição de dois livros de Monteiro Lobato é um dos “Movimentos Negros”, sediada no Rio de Janeiro e que tem apenas 2 membros.

Estamos no limiar da estupidez humana, da embolia cerebral por falta de pensamento livre. Querer apagar dos livros e da história fatos que denotem qualquer tipo de pensamento ou mesmo de atitudes é fingir que o problema não existe e que nunca existiu, é imaginar que apenas com isso estaremos libertando nossas consciências, e fechando a conta dos nossos ancestrais que foram torturados e escravizados. Não é lembrando a cada minuto que cor de pele nós temos, lembrando diariamente o quanto nossos ancestrais sofreram no passado e que portanto precisamos ser tratados de forma diferenciada por causa disso, recebendo cotas, privilégios e demais esmolas, que construiremos uma sociedade digna e o mais justa possível. Não se trata de esquecer o que aconteceu, mas não carregar nem imputar o peso dos erros do passado nas costas de quem quer que seja. Em outras palavras, “Eu Tenho Um Sonho”

A questão do racismo e do preconceito é tão antiga quanto a humanidade e sempre dependeu de quem domina. Os negros e os judeus certamente foram os que mais foram vitimas dele, ninguém discute. Mas esse tipo de afirmação como na manchete acima, tem a pura conotação fascista, colaborando não para que a espécie humana conviva com as diferenças, de todos os gêneros, mas de impor superioridades baseados nos mesmos critérios preconceituosos. O preconceito sempre irá existir na humanidade até que ela tenha consciência elevada, com toda a vaidade pessoal e instinto de dominação destruídos. Mas como isso, pela própria gênese humana nunca irá acontecer, teremos que aprender a conviver com essas questões. Sem ilusões de igualdade, sem hipocrisias morais. Apenas com o sentimento de que somos sim todos diferentes, mas podemos conviver com essas diferenças.

01/11/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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