Crônica – A Volta dos Vampiros

“Baseado em que você pune  quem não é você” (?)  Raul Seixas

Estamos assistindo ao recrudescimento da censura no Brasil! (Censura no brasil?). Debaixo da desculpa de tolher a programação apelativa exibida por algumas emissoras de televisão em busca de aumentar sua audiência/faturamento, passaram a impor uma tal de “censura classificatória”, baseada em horários para a exibição. Recentemente um portal de Internet foi obrigado a retirar, por ordem da Justiça (?) um texto sob a forma de editorial que exprimia posição contrária a um candidato a prefeito em São Paulo – candidato esse com histórico extremamente ligado a repressão no governo Militar.

A censura afiou suas garras e começa a dilacerar a cultura brasileira, novamente, cuspindo fogo igual a um dragão. Não podemos permitir qualquer espécie de censura. A Constituição brasileira deixa claro: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.”. O que não dá para compreender é porque os órgãos censurados não utilizam isso para se libertar da censura. Isso faz com que alguns outros questionamentos, como a forma que essas empresas de comunicação adquirem um canal de televisão – que é uma “concessão pública”. Em outras palavras, não vão brigar contra seus “beneméritos”.

As diversas formas de censura têm atrasado a evolução cultural do ser humano, desde o incêndio criminoso da Biblioteca de Alexandria, passando pelos Jesuítas impondo à força sua religião aos índios; governos, igrejas e demais instituições muito contribuíram para o estado de barbárie cultural em que nos encontramos.

Passamos de um período nojento de ditadura Militar para um também nojento período de ditadura neo-liberal, onde cada um a seu modo esfola os pobres, aniquila a classe média e poupa os ricos; onde uma dupla de Fernandos entregou o brasil (Brasil?) a interesses econômicos internacionais à guisa da tal globalização (globalização é impor ao mundo o padrão da Rede Globo?). E é esse governo de um pseudo-intelectual, que manda que esqueçam o que ele escreveu, que permite o retorno da censura (Censura?) ao país.

A figura  burra do censor inculto, com sua tesoura burra paira sobre nossas cabeças. Agora sob a forma de “classificar” programas de televisão, amanhã quem sabe sob que outras formas! O que irão fazer quando as “ordens” de censurar (“classificar”?) não forem cumpridas? Vão tirar os cadeados da porta dos DOI-CODIs? Reativar o DOPS? O Cemitério de Perus? É, existe ainda um tal xerife por ai para dar conta desse recado!

Os mortos e os torturados do regime militar ainda nem esfriaram na sepultura ou fecharam suas cicatrizes e tal  uma fênix forjada no fogo do Inferno, um dragão com mil cabeças, ela retorna mais faminta do que nunca. E o alimento do Dragão da Censura são cérebros, letras, pensamentos, papéis, palavras. É um monstro atraído pelo cheiro da Cultura tal um vampiro pelo cheiro de sangue.  O cheiro da Cultura enoja a censura, e então ele tem que liquidar qualquer forma. A censura é prisioneira de sua burrice e hipocrisia, então não pode permitir qualquer tipo de liberdade de expressão.

Não bastasse uma educação castradora, incompetente e vagabunda que esse sistema educacional nos impõe, propositalmente montado para emburrecer (emburrecer=não permitir/incentivar que se pense) e que já é por si próprio um eficaz sistema de censura (com certeza o maior deles!), temos que ter a serviço do emburrecimento da espécie humana, especialmente da espécie humana que habita um país chamado brasil (Brasil, quando?), uma corja de senhores e senhoras que se preocupa em impor “os bons valores da sociedade” a todos, se arvorando em defensores da moral alheia, mas que no final defendem seus próprios interesses e frustrações morais e intelectuais.

Uma sociedade tem que ser construída em cima do debate de idéias, não em cima da imposição de nenhuma delas.

11/17/2000

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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