Crônica – Achismos e os Outros Ismos dos Traidores da Língua

Outro dia me perguntaram: “O que acha do Comunismo?” – Eu não “acho”… E também, como é a forma de se expressar de políticos, não “sinto que”. Também, com relação a isso, “não acredito que”. Achar é falta de segurança, de conhecimento; sentir é puramente emocional, e também denota falta certeza. Já acreditar demonstra fé, algo que tenta passar misto de arrogância com ignorância. Agora, sim, a resposta é: “eu penso que”, que é baseado em estudo,  raciocínio e lógica, além de não ter o intuito de declarar solenemente uma “verdade absoluta”. “Eu penso que” é o fruto de análise, dialética e empírica, carregando a mais pura expressão individual.

Há uma distância enorme entre esses termos, mas a atual geração criada por uma educação reducionista, que passou a “ressignificar” a língua, não pelos belos motivos que apregoam, mas por pura preguiça mesmo reduz a língua e a linguagem a pó. “Politicamente Correto”, “Protagonismo do Aluno” e outras besteiras funcionam, ao contrário da cartilha que foi lida, mas nunca compreendida, como um moedor de carne, transformando as palavras numa pasta sem forma.

Aos que não aceitam tal degeneração da língua, acusam de não ter “mente aberta”, mas como bem escreveu Flannery O’Connor “algumas pessoas têm mentes tão abertas que seus cérebros vazam por elas. ”  E lá se vão às metáforas, que a maioria usa sem sequer saber o que significam. E lá se vão o uso de superlativos como “fascista” ou “genocídio” para descrever tragédias bem menores. Mentes menores têm a mania de carregar no exagero para tentar revestir sua falta de capacidade em usar as palavras corretas, dando mais importância a um ato ou pessoa. E aí não é preguiça apenas, mas má fé, mesmo.

Sabemos que ao longo do tempo, as palavras acabam tendo seu sentido mudado, mas da forma como desejam aqueles que pregam: “a língua é viva”, como justificativa para a distorção que tentam na marra impingir, acabando apenas por adoecê-la, transformando-a de acordo com seus interesses. O melhor exemplo é a confusão criada entre as pessoas de que “individualismo” e “egoísmo”. São coisas muito distintas, e é sempre preciso muita saliva para demonstrar a realidade. O Dr. Flávio Gikovate tem um artigo muito interessante onde demonstra claramente a diferença: “O egoísta não pode ser individualista porque ele tem que ser favorável à vida em grupo já que não tem competência para gerar tudo aquilo que necessita. É do grupo – ou de algumas pessoas pertencentes ao grupo – que irá extrair benefícios”, constata.

A tragédia, entretanto, não está na confusão do sentido da palavra, até porque temos muitas outras em situação idêntica, mas a maldade inerente a isso. Usam propositalmente “egoísta”, com toda carga negativa que há, ao se referirem a uma pessoa que tem atos e pensamentos que são puramente individualistas. Uma tática puramente baixa, usada particularmente pelas escolas marxgramscistas contra seus “opositores”.

Ayn Rand, a filósofa russo-americana, com seu Objetivismo, é a maior defensora do Individualismo, e trata disso em quase todos os seus livros. Num dos primeiros, “Cântico”, e que passa num futuro em que impera uma ordem governamental totalitária de tipo fasci-comunista, mas sem um nome específico. O tema central da história é o conflito do indivíduo contra o coletivo. Nele, a escritora define ali toda sua linha de pensamento filosófico sedimentada em obras posteriores, “A Nascente” e “O Despertar de Atlas”. No primeiro, que trata da história de um arquiteto cheio de brios e firme na sua defesa do mérito e do individualismo, e que virou filme, tem seu ponto alto no julgamento do protagonista, que atua ali como seu próprio Advogado. A defesa termina: “Eu vim aqui para ser ouvido em nome de cada homem independente que ainda resta neste mundo. Eu quis estabelecer meus termos. Eu não quero trabalhar ou viver em nenhum outro. Meus termos são: o direito do homem de existir por suas próprias razões.”

Muitos culpam a velocidade dos tempos para justificar o reducionismo da língua, justificam o uso de abreviaturas ridículas como pressa em responder. E assim preconizam um cenário bestial e incompreensível, um dialeto rudimentar que joga por terra milhares de anos de evolução humana. É mera desculpa, mais uma vez, pela preguiça de aprender, e uma clara intenção de esconder sua ignorância. Tudo se justifica pela  inclusão, numa roda que é girada no sentido contrário e emperra a roda da evolução. É assim que o jogo do poder funciona: fazer com que essas pessoas acreditem ser humanistas, livres, quando na verdade são apenas massa de manobra. Mantê-los na ignorância para reinar sobre a manada estúpida.

E assim lá se vão eles, com seus ressignificados que são apenas maneiras ditatoriais de impor suas formas distorcidas com relação ao significado real. Li há algum tempo que os antigos desconheciam a palavra “azul”, e se desconheciam a palavra não saberiam definir a cor do céu, por exemplo, e se não sabiam, a cor não existia?

Entre ressignificações e reducionismos, há também a apropriação dos sentidos, como por exemplo: “liberdade”, talvez a palavra mais torturada da história das línguas humanas, e a mais prostituída. Ela está em todas as bocas, mas em cada uma delas há um sentido pessoal. E embora os coletivistas façam constantes requisições públicas sobre a propriedade dela, é ali que seu sentido estrito encontra menos significado. Erguem e cerram os punhos e bradam “liberdade”, mas desconhecem totalmente o sentido de ser “livre”, já que das suas bocas saem palavras de ordem sem qualquer senso de responsabilidade pessoal. Brados ocos de línguas chulas vindas de cérebros manipulados. Isso é “liberdade”? Agem como no romance de Orwell subvertendo seu sentido. A esses, “liberdade é prisão”.  A Liberdade está no individualismo, e somente nele.  Para Aristóteles, a liberdade está baseada na possibilidade de realizar escolhas orientadas pela vontade, mas que deveria estar acompanhada do conhecimento.

Bem, para não transformar este artigo num tratado sobre linguagem, até mesmo por não ser minha intenção, termino respondendo a pergunta que o suscitou: o que eu penso do comunismo. A resposta:

Penso, e esse pensar é baseado numa lógica que me concerne afirmar que há nele não um erro, por ele ser um  erro desde sua concepção, buscando tratar seres humanos como manada, e buscar, primeiro pela força depois por palavras distorcidas e mentirosas, destruir justamente o maior valor humano que é o indivíduo e sua capacidade evoluir a partir de seus próprios esforços.

Em resumo, não posso aceitar um sistema que pretende mudar a natureza humana, em prol de um coletivo imaginário. E a mim quem quer destruir a essência humana comete um crime contra a humanidade. É simples assim. Eu penso!

20/01/2021

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

5 1 Vote
Article Rating
Assinar
Notificação de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários