Crônica – Ainda Existem Homens Fortes?

Dia desses, comentando com meu pai de 80 anos e getulista assumido, sobre o fato de eu estar relendo “Olga” de Fernando Morais, e sobre o que fora de fato a chamada “Intentona Comunista”. No fim do meu resumo, ele saiu com a seguinte observação: “É, naquela época ainda existiam homens de verdade!” E então me pus a pensar sobre o que ele dissera e que parecia em principio ser de uma simplicidade extrema com um toque de machismo, mas cheguei a conclusão que ele tinha absoluta razão. Afinal, um homem como Luiz Carlos Prestes, militar de carreira, atravessar quase o país inteiro comandando um bando de esfarrapados e armados quase que apenas com o ideal de libertar um povo das garras de uma ditadura sangrenta e humilhante, não é o que teríamos hoje. Ser torturado e ver sua esposa ser deportada para dentro da Alemanha Nazista, sabê-la morta em câmaras de gás e mesmo assim, ainda continuar acreditando e lutando pela libertação de um povo que nada fez para ao menos caminhar ao seu lado, não é exatamente o tipo de atitude que veríamos nestes dias.

Até o final do Século XX, mais precisamente até os anos 1980, ainda existiam tais homens, que, por um ideal se submetiam calados à tortura; que se submetiam a miséria e a fome em nome de um povo; que se submetiam ao exílio e a falta de condições de vida por lutar por um povo que sequer tinha consciência de sua existência e que vibrava a cada gol numa Copa do Mundo. Pessoas como Olga Benario, Carlos Lamarca e Carlos Marighella e outros trocaram suas vidas por um ideal, deram suas vidas pelas vidas alheias, por um sonho de liberdade não pessoal, mas de um povo inteiro.

E eu então pergunto: existem hoje pessoas com tal espírito? Com tal desprendimento, com tamanho “amor” de fato à raça humana de uma forma geral?  E eu mesmo respondo, sem nenhuma chance de estar infelizmente errado: não existem! E essa conclusão é a coisa que mais me causou perturbação. A frase de meu pai faz absoluto sentido, mas por quê? Seriam hoje os homens feitos de uma matéria diferente daqueles que a 30, 50 ou 80 anos existiam? Claro que não! Onde, então foram parar esses “homens de verdade”?

Provavelmente precisaríamos de uma completa análise histórica a partir dos últimos 80 ou 100 anos, que englobasse todos os fatores inerentes para compreendermos tal “desaparecimento”. Ou talvez a coisa seja um tanto mais simples. Nasci ainda no final dos anos 1950 e passei minha infância, adolescência e parte da vida adulta debaixo de uma Ditadura Militar no Brasil. Conheço, portanto, o comportamento e o pensamento de meus contemporâneos. E tive filhos e os vi crescer justamente a partir do final desse processo e, aparte a educação que lhes dei, percebo o quanto essa geração e as posteriores passaram a enxergar o mundo, de uma forma mesquinha, vaidosa e ignorante.

O final dos anos 1980 viu a derrocada do sistema Socialista no mundo, através do fim da União Soviética e da derrubada do muro de Berlin. E, mais do que simbolizar o fim de um sistema de governo, isso deixou órfão todos os idealistas, quebrando suas referências. A espécie humana precisa das dualidades, das referências, dos opostos. Precisa de opções que representem um caminho: Bem ou Mal, direita ou esquerda e assim por diante. E o Socialismo representava a outra ponta da corda, a opção, o caminho para aqueles que acreditavam que se do lado do Capitalismo as coisas eram ruins existia a outra ponta, o Socialismo, como a referência. Existia a busca por um outro ideal, uma tentativa, um sonho, que com o fim do Socialismo morreram, deixando órfãos todos os idealistas. Pois a parte a crença no socialismo em si como sistema correto ou não, justo ou não, era simplesmente o fato de existir a opção que mantinha os ideais vivos. E os ideais é que fazem com que pessoas vivam ou morram por eles. Sejam quais forem.

E aí é que realmente está a cerne da conclusão perturbadora a que meu pai, sem qualquer estudo filosófico ou histórico chegou, mesmo sem ter consciência: falta aos homens de hoje um ideal. Um ideal que não se encerre em si próprio, em suas necessidades vitais de vaidade e dinheiro. Claro que muitos seres humanos vivem bem sem um ideal fora de sua própria existência, claro que muitos vivem apenas pelo “ideal” que seja apenas comprar um carro novo ou ter dinheiro para beber, mas creio que a essência humana seja coletiva por natureza própria ou pela da moral religiosa arraigada há milênios, mas é baseada sempre num por que, num motivo. E porquês e motivos são as bases do ideal.

O ideal gera comportamentos e atos. Não há como isolar. Isolados são efêmeros e desprovidos de verdade, desprovidos de ação. Comportamentos sem idéias são vazios. Podem ser reativos, mas não causam efeitos e se o fizerem são de curta duração ou de fraca expressão. Agora, comportamentos baseados em idéias e ideais são duradouros e fortes, representando o crescimento da humanidade como espécie.

Enfim, a conclusão que chego a respeito da afirmação de meu pai é que não existem mais “homens” de verdade por não existirem mais ideais. Os ideais fazem os homens fortes, os faz viver e morrer. Sem eles, somos apenas uma massa uniforme de seres amontoados preocupados apenas com comportamentos despidos de tudo, ocos e mecânicos.

24/10/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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