Crônica – Ainda Sobre Vontade de Morrer

Ontem tive vontade de morrer, outra vez. Vontade de morrer outra vez, este mês. É o que me move na vida, essa vontade de morrer, de correr aos braços da morte sempre que me sinto em perigo. Insano isso? Fuga impossível, acredito. Lendo “Tabacaria[1]” de Pessoa e pensando o quanto é uma merda tudo isso. Lembro de tudo o que escrevi, quilos e quilos de papel, mais uma milhar de poemas, a grande parte enormes tratados sobre a mente humana, sobre mim mesmo. Mas o que importa toda essa papelada, quando dentro em pouco estarei mesmo morto. Talvez minha poesia sobreviva um pouco. Um geração quem sabe. Lembrarão dela, mas não de mim, até não lembrarem mais de nenhum dos dois. O papel, aqueles quilos, irão amarelar, apodrecer. Os bites e bytes dos computadores onde foram escritos serão corrompidos. Ah, os vírus de computador, os vírus humanos, os germes. E não sobrará mais computadores e nem minhas lembranças neles registrados. Pensamentos agora não duram mais que um dia.. Menos.. Quinze minutos de fama, como disse Warhol, é o que dura qualquer filosofia mais alta ou rasteira. Ah, que lástima! Ontem tive vontade de morrer… Outra vez… Mas acho que vou aproveitar o sol de hoje e viver um pouco.

[1] O poema “Tabacaria”, datado de 1928, enquadra-se na terceira fase poética de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.  É um poema moderno, caracterizado pelos versos livres.

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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