Crônica – As Portas da Decepção ou A Poesia Está Morta! Viva a Poesia?

“Este é o fim / Belo amigo / Este é o fim / Meu único amigo, o fim /Dos nossos elaborados planos, o fim / De tudo que permanece, o fim/ Sem salvação ou surpresa, o fim / Eu nunca olharei em seus olhos…de novo / Você pode imaginar o que será? / Tão sem limites e livre / Precisando desesperadamente…de alguma…mão de estranho / Numa terra desesperada?…” 
“The End” – The Doors – 1968

Nos últimos tempos comecei a sentir aquele buraco que muitos acreditam ser na alma. Um buraco que acaba gerando angústia e demais sentimentos de tristeza e pena. Depressão? Diante de tanta violência absurda e descontrolada exibida em todas as mídias de forma gratuita e inconsequente, onde extermínios de pessoas são mostrados da mesma forma que se mostra uma receita de bolo, numa sociedade cada dia mais anestesiada pela dor, só resta mesmo o quê? Escrever poesia?

Durante muito tempo, a maior parte da minha existência que já conta mais de meio século, sempre acreditei que sim, que seria esta a saída, que a poesia seria o antídoto para tanta estupidez humana, para tanta ignorância, para tanta falta de sonhos e objetivos. Mas agora sou obrigado a confessar que nisso, como em tantas outras coisas, eu estava errado, pois não pode a poesia sobreviver diante de tanta mazela, de tanta fome, de tanta dor. Não pode, definitivamente não pode!

Há cem anos, um ladrão de bicicletas era manchete de jornal e as pessoas se estarreciam com um crime violento. E nem precisava ser tão violento. Não me cabe aqui analisar o que levou a violência a ser cada dia mais banalizada e portanto menos “chocante”. Deixo esse trabalho aos estudiosos de comunicação, aos filósofos e matemáticos, mas o certo é que as gerações anteriores tinham na poesia o contraponto às suas angustias. O prazer intimo de contemplação das artes era necessário a combater o “tédio viciante” numa sociedade que vivia ainda sob a égide da emoção. 

O acesso á informação e as artes eram restritos e isso fazia com que apenas aqueles que se interessavam realmente por elas, seja como produtor ou consumidor, tivessem acesso. E embora isso criasse de certa forma uma segregação, onde os mais pobres não tinham acesso, de certa forma “filtravam” e davam às artes um ar aristocrático que de fato, me desculpem os socialistas de ultima jornada, necessitam.

A massificação da mídia e o crescente “poder de criação” dado àqueles que sequer tinham uma capacidade mínima de raciocínio artístico foi nivelando por baixo a qualidade artística. A era da Informática, deflagrada no final do Século XX jogou finalmente a chamada pá de cal sobre o defunto da Arte, com qualquer pessoa com acesso a um computador e ligação com a Internet passasse a se julgar “artista” e a “produzir arte”. Enfim, muita gente se achando no direito de “criar arte”, sem o mínimo necessário para criar algo além de galinhas em seu próprio quintal. Esse comportamento, gerado pelos poderosos em busca de mais e mais dinheiro e poder, criou a ilusão de que todos podem falar, todos podem escrever, todos podem ser artistas retirando dos verdadeiros artistas e intelectuais o “poder” de polarização consciente. É parte do mesmo jogo! Ilusionismo barato de um mágico de quinta. Em palavras mais simples, aniquilaram os chamados “formadores de opinião”, dando a idéia de que todos o podem ser, e então, aquele ser cujo cérebro é menos evoluído do que o de uma ameba, se considera no direito de auto formar a sua e “formar” a alheia, num jogo cujo final é o emburrecimento e a involução cultural do ser humano.

E também é fácil perceber, pelo menos para quem quer, que esse mesmo esquema foi usado em tudo, da política aos esportes, da educação ao sexo, e das relações humanas como um todo ás artes. Criaram a ilusão de que todos podem tudo usando por pano de fundo o efêmero conceito de liberdade. Então, baseado nisso, as pessoas passaram a se sentir poderosas, achando mesmo que podiam ser tudo o que quisessem, mesmo que não tivessem capacidade para nada. E isso, no campo artístico acabou gerando uma realidade em que já não existem leitores porque todos se consideram escritores, não existem mais espectadores porque todos se julgam músicos e por ai a fora. As livrarias estão entupidas de livros que não são comprados e se comprados nunca são lidos. Milhões de bytes circulam sob a forma de arquivos digitais de musica e cinema na Internet, que são baixados gratuitamente e nunca são escutados. O importante é fazer com que os tolos pensem que tem o poder, que podem tudo, que não precisam mais pagar por nada. Uma tática de dominação antiga.

Fora o caos artístico que esse comportamento criou, o pior acabou acontecendo na sociedade como um todo e que culminou com essa violência estúpida que é tratada e sentida como natural. Esse sentimento de que “todos podem tudo”, esse sentimento de poder dado a quem não consegue sequer gerir a própria existência foi diretamente responsável por estarmos vivendo numa sociedade em que não existe mais respeito a nenhum tipo de hierarquia, onde todos os valores autênticos e na maioria das vezes necessários foram jogados ao chão e pisoteados. E não falo sobre valores morais que podem e devem ser contestados, mas de valores éticos essenciais à sobrevivência da espécie. Até mesmo a diferença básica entre esses dois conceitos foi escondida propositalmente para criar uma confusão necessária no mecanismo de dominação. E jogando por terra esse valores éticos nivela-se tudo por baixo, criando-se a partir daí um estado de confronto, ao contrário do que supõem os filósofos coletivistas.

E num estado em que tudo é visto desta forma, o acirramento dos ânimos, o confronto verbal e armado é inevitável. E quem criou isso ainda quer mais, feito um monstro insaciável que não vê fim para sua fome. E o que pode se feito para de fato mudar tal estado de coisas? Escrever romances e poemas? Pintar quadros? Não, decerto que não! Abandonemos, portanto as artes, deixemos de lado as canetas, os pincéis e as máquinas de escrever guardados dentro da memória e presos num tempo em que Arte era feita por artistas, num tempo em que o conhecimento valia mais que drogas, num tempo em que almas valiam mais que armas, num tempo em que sonhos não eram ilusões criadas por poderosos, mas objetivos sinceros e concretos.

Estamos alegremente vivendo a era do Fascismo Fascinante, muito mais perigoso que qualquer outro. As liberdades são colocadas como centro das atenções e servem de cortina de fumaça aos interesses escusos de bandidos cujos interesses estão no poder e no dinheiro. Somos todos marionetes alegres e fascinadas curtindo e compartilhando tolices em redes sociais. Onde entra a Poesia nisso? A poesia não entra nisso, ela está morta. E que não reviva, que não ressuscite! “É o fim, belo amigo”!

19/10/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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