Crônica – Auto-Entrevista

Penso que a entrevista é a nova forma de arte. Penso que se entrevistarmos-nos a nós próprios é a essência da criatividade. Colocarmo-nos perguntas e tentar encontrar respostas. Um escritor está apenas a responder perguntas que não foram expressas.” Jim Morrison

Penso eu, então e, portanto porque apenas aqueles cuja fama, construída às vezes das formas mais estranhas e esdrúxulas possíveis e, por que não dizer, a preços altíssimos, é digno de ser entrevistado pelos meios de comunicação. A defesa é que pessoas que não têm fama é porque nada fizeram para se destacarem perante a legião de seres humanos, e, portanto crédito algum merecem, que ninguém irá se interessar por histórias comuns, daquelas que o próprio espelho conta. Permanecem, pois e, portanto, a grande imensa maioria bastarda de fama, totalmente desconhecida, sem direito á conceder sequer á um jornal de bairro, nem mesmo um jornalzinho de escola.

Pobres seres humanos, cujas vidas não causam nenhum interesse, cujas histórias não são contadas, cujas vidas apenas a si próprios é interessante… e quando é! Pobres, pobres seres, candidatos ao posto de NADA, pois não lhes é dado o direito de uma simples… entrevista!

Quem é, por exemplo, um camarada chamado José ou Quincas, que habita os recônditos das periferias de uma grande ou pequena cidade, com seu emprego medíocre e pouco interessante, seu futebol de domingo, sua mulher gorda e engordurada, seus filhos que estudam numa escola publica caindo aos pedaços… ? Quem poderia se interessar por tal entrevistado, que se acaso fosse dado o direito de o ser, fatalmente iria passar o tempo se lamuriando da vida, das injustiças sociais, caso tenha consciência disso…

Andy Warhol disse há uns trinta anos que no futuro todos seriam famosos por quinze minutos, lembram… ele era muito entrevistado e, portanto seus (dele) pensamentos passaram a ser de conhecimento publico. Mas o José ou o Quincas podem pensar algo muito interessante, nem que seja alguma alucinação causada pela cachaça barata, que por ser parte do Movimento dos Sem-Entrevista, nunca terá seu pensamento colocado á luz do mundo… e ele nunca será famoso nem por quinze segundos.

Á luz da razão, á mídia vive de “coisas que interessam” certo? Certo o cacete! A mídia vive de coisas vendáveis, e pessoas com histórias ditas comuns não são vendáveis… São contadas em prosa e verso, histórias como as de Carolina Maria de Jesus, (Anderson) Herzer e outros, mendigos, abandonados pela vida que em dado momento conheceram a fama. Algumas circunstâncias atenuantes, alguns chamados golpes de sorte e, pronto, está feita a química que alimenta de sonhos a imensa massa de sonhadores que passa a medíocre vida esperando um dia um momento de fama, de uma entrevista, de um alô a uma câmera de TV, um olá em um microfone de rádio, ou umas poucas linhas em um jornal ou revista.

Alimentam um sonho, dão esperanças a desesperanços e desesperançados, mas a entrevista nunca vem, o sonho passa de pai para filho, e deste ao neto… e assim continua. Belos e belas atores e atrizes, medíocres em sua maior parte, cantores e cantoras que tem o talento não nas gargantas, mas numa parte mais inferior do corpo, políticos corruptos hipócritas, ladrões descarados, assassinos impiedosos, ricos com suas dentaduras de cristal, enfim toda uma corja de pessoas inúteis, mas que servem para alimentar o “establishment”, são consultados, contam suas histórias que não são mais interessantes que as do José e do Quincas, mas que, como a fama os alcançou, travestem-se de importantes e deitam o verbo em entrevistas mau conduzidas, por jornalistas pouco perspicazes e preparados.

Encontremos as respostas, façamos as perguntas, teçamos os comentários… Mas porque, agora, decidi gastar tempo em pensar em uma coisa tão pouco “necessária”. As necessidades das classes economicamente menos abastadas entenda-se pobres e fudidos, é alimentação, escola, essas coisas. Imagine que ficam se preocupando em serem entrevistados? Possivelmente não mesmo, pois as classes dominantes, enfiaram, pela própria mídia incluindo aí a maior forma de mídia existente, as religiões, na cabeça dos fudidos que ele tem que gozar vendo o sucesso alheio, que ele tem que ficar horas na frente da TV escutando “pérolas” de artistas de quinta ou décima categoria, famosos e importantes.Aos fudidos não é dado o direito do prazer próprio, ou em outras palavras, ele foi ensinado a “gozar com o pau dos outros”.

Pessoas comuns, histórias comuns, verdades comuns, simplicidades comuns. Quem há de se interessar por isso? Estamos muito ocupados, escutando nossos ídolos, bêbados e drogados deitarem o verbo sobre coisas que nada acrescentam. Ídolos de pano, ídolos de esterco, fracos que falam que apenas os fortes sobrevivem, tolos que brindam a imbelicidade, se fazem de gênios, fingidos e hipócritas que têm no poder de seus nomes, a coisa da dominação, do poder sobre outrem. Pessoas que são seres mais que comuns, mas que têm na forjada fama, muitas vezes comprada a preços inomináveis, a desculpa para serem… entrevistados.

Deixando essa conversa barata um pouco de lado e vamos aos que interessa, quero falar sobre mim, numa espécie de auto-entrevista, a única forma que sobra a uma pobre barata que ousou botar a cabeça para fora da toca, e é caçada por todos os cantos da casa, com o Senhor Dono da Casa de chinelo em riste, inseticidas poderosos e um asco que não lhe cabe na alma. Falo sim, sobre mim, que tenho algo a falar. Sou meu próprio entrevistador e o entrevistado. O inquirido e o inquiridor (não inquisitor). Minhas odes poéticas falam mais de mim, mas agora é a prosa que me contenta. Falo comigo e de mim, pergunto e respondo num mesmo tom, ameno e ríspido, dependendo do papel que me cabe, se o de entrevistador ou entrevistado. Sou franco e sorrio a mim mesmo, me esculhambo e me regozijo com minha própria sapiência e inutilidade em momentos diversos. Sou santo e me faço demônio, depois inverto os papéis. Estou lado de quem pode e de quem fode. Sou minha própria câmera, espelho inverso, e enquadro meu rosto no ângulo perfeito. Sou belo e sou feio, porque assim o desejo. Por que eu? E porque não? Pergunto e respondo a mim mesmo. Faço uma pergunta e patino e enrolo na resposta. Afinal, isso não é pergunta que se faça a um homem de tal gabarito e importância. A franqueza e a ironia do meu sorriso dizem tudo. e do outro lado da câmera eu mesmo me envergonho. É obrigação de qualquer entrevistador, conhecer o entrevistado. Eu devia ter me informado mais sobre mim antes de me entrevistar, porque assim não passava vergonha.

Uma entrevista tem que começar, criar clima, envolver o entrevistado, criar um clima de cumplicidade e antagonismo ao mesmo tempo. E assim procede. Debato-me debaixo de perguntas capciosas, engenhosas ás vezes, fúteis em outros, formulo pensamentos que ás vezes não saem pela boa, nem na pergunta nem na resposta. E as respostas parecem perguntas e as perguntas, respostas. De que lado, afinal, estou? Quem é o reporte que pergunta, quem é o entrevistado que responde, esta é a pergunta afinal. A garganta agora seca e o coração pulsa mais forte diante de uma pergunta indiscreta… porque afinal essa pergunta? O que pode ela acrescentar sobre minha personalidade? Que tipo de interesse algo tão intimo, mas ao mesmo tempo tão sem necessidade está sendo perguntado. Pura vingança, puro prazer mórbido em massacrar o entrevistado. Mas a resposta vem, sob a forma de um silêncio profundo e duradouro, o tempo suficiente para criar um clima de importância a tal resposta. A vingança está feita.

Porque cargas d’água, essa maldita entrevista não acaba?! Entrevistador e entrevistado um de cada lado respirariam aliviados e iriam tomar uma cerveja gelada no boteco da esquina e tudo acabaria assim, num grande e hipócrita abraço. Mas ainda tem o “grand finale”, tem a apoteose, a grande pergunta, aquela que fará borbulhar o sangue do entrevistado e do entrevistador, o golpe de misericórdia, a grande e absoluta pergunta que todos esperam. A pergunta que será capaz de abalar as mais duras estruturas, corromper os pilares da sabedoria e da história da humanidade. Imaginem que pergunta seria essa! Imagine, pense! Tente se antecipar ao entrevistador! Perspicácia, meu amigo! Tente adivinhar a resposta do entrevistado, supor suas reações, sobre o quanto irá pulsar seu coração! A grande pergunta, a pergunta da noite… Mas…

Antes vamos aos nossos comerciais, por favor!

9/17/2002

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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