Crônica – Banho de Merda

Quando escrevo, faço questão de exercer meu sacrossanto direito à liberdade de pensamento. Um sagrado e santo direito que não foi concedido, mas tomado à força. Conquistado por mim com a derrubada do monárquico poder da religiosidade sagrada. Eu o derrubei, e assim conquistei o direito à minha liberdade. Não estou preso a nenhuma deidade e sim a única coisa, o único ser, a quem rendo glórias e urras. E a única sacralidade e santidade a quem devo devoção é a mim mesmo. Sou senhor de mim e não aceito nenhum dogma. Nada é sagrado, nada é eterno, nada é milagroso. Não existem milagres, nem santos, nem deuses. Sobre minha cabeça o pendulo do tempo pesa, e a espada da morte espeta meu crânio. O tempo e a morte, a morte e o tempo… Únicos deuses que temo, por sua realidade e realeza. Escrevo por teimosia e maledicência, escrevo por culpa e por inocência. Por ausência e indecência. A escrita ou a morte, gritou o ditador empunhando a luz do fim do túnel. Então entregue suas armas, grita a policial gostosa com jeito de puta. Não me entrego, grito eu, segurando a caneta com os dentes. Morro mas não me entrego, penso eu, ainda imaginando que sou um herói do velho leste. O sol nasce no Leste e no extremo leste não habita mais meu coração. Enterrem meu coração na curva do Rio. Mas não de Janeiro, nem de Fevereiro. Enterrem na curva do Rio Tietê, onde na minha infância eu pescava com meu pai. Há muito não há mais peixes no Tietê nem em rio nenhum. Apenas merda correndo a céu aberto em direção ao mar de merda onde pessoas ricas tomam sol. Banham-se na merda e se acham bacanas. São tolos os ricos que tem carros e vão para a praia tomar banho de sol e de merda. O sol nasceu para todos, menos para aqueles da escuridão. A merda também nasceu para todos… Nem todos, apenas para aquele que tem cu. Nem quero escrever mais, não tenho mais vontade. Principalmente nessa época beirando o natal cristão, com pessoas gastando muito dinheiro, consumindo até a merda, gastando o que não tem para ostentar o que não pode. Foda-se o natal! Quero dormir e acordar depois do Carnaval. Quando acaba o ano que ainda nem começou? Feliz ano velho. Feliz ano, velho! Velho é a puta que te pariu! Agora estou gripado, cansado e sem dinheiro nem nada. Quero acabar logo de escrever isso, que me dá no saco ficar escrevendo um monte de merda que ninguém lê. Pensar em literatura numa terra em que as pessoas não lêem sequer receita de bolos… Ah, danem-se, os literatos, danem-se os professores de literatura, danem-se os poetas das casas de rosas. Daqui a pouco estou morto mesmo e então… Cremem meu coração e joguem na curva do Rio… Que elas se misturarão ao resto das merdas que banharão os ricos que tomam sol nas praias…. Banhos de sol, de merda e de minhas cinzas…

18/12/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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