Crônica – Blaterações de Um Ex-Poeta

Eu queria escrever um poema, algo que pudesse não ser tão carregado de ódio e impotência contra os tiranos que carregam ao fim. Há um ano não faço poesia, porque há um ano a humanidade acabou. Não há rimas nem métricas que possam exprimir o que sinto, e todas as palavras que existiam dentro de mim parece que também fugiram amedrontadas. Não pela gripe, que é bem menos letal que outras tantas doenças, mas o que afugentou as palavras que eram meus antídotos contra a loucura, a depressão e o desejo de morte, foi perceber o quanto a maioria da humanidade é tão covarde e estúpida, e se deixa conduzir sem qualquer reação a um trem que a levará ao holocausto. O mundo, há um ano se transformou num imenso campo de concentração, e assim sendo, quem, mesmo os poetas mais duros como eu, poderia pensar em poesia. Admiro meus amigos, poetas melhores e melhores poetas que eu, que ainda conseguem. Não há ironia nem crítica no que digo sobre eles. Eu os admiro, da mesma forma que admiro qualquer pessoa que consegue fazer algo que eu jamais teria capacidade ou coragem de fazer. Por isso admiro aos policiais, aos bombeiros, aos médicos, aos engenheiros; pessoas que constroem, protegem, salvam. E também aos poetas que ainda insistem em fazer tudo isso com palavras e atos. Ser poeta nesse mundo sem poesia é apenas para os fortes, e descobri que não sou. Ser forte não é não temer a morte, ser forte não temer a vida. Alguém já deve ter dito isso antes. Decerto. Eu queria mesmo ainda poder escrever um poema, como milhares que escrevi, e falar sobre as vontades e desejos humanos, sobre as mazelas do cotidiano e sobre os prazeres que nos fazem sentir vivos. Queria terminar de pintar um quadro que está por concluir há quase um ano, ou o romance que comecei e que com certeza nunca vou terminar. Todas as manhãs busco a coragem de encarar outro dia, mas não tenho forças nem para chegar ao portão. E nem que chegasse não poderia sair, pois os tiranos proibiram a rua. E se não existe rua, não há porque tem poesia. Queria escrever aqueles poemas longos com cinquenta estrófes de quatro versos, desafiando a lógica, a certeza e o blaterar a universos, mas sequer consigo alinhar palavras tortas de desespero em um bloco de notas. Aliás, tomo notas e depois esqueço onde guardei. A cabeça dói, o estômago rói e a cada dia preciso de mais. Mais bebida, mais remédios para uma dor que não é minha, mas do mundo. Esqueci como se escreve. Perdi a mão. Perdi tudo o que me obrigava a ser poeta. A vontade de…

Há um ano cometi meu último poema… E tinha versos de desejo.. Ali eu ainda queria… Sentia…

“Ontem eu ejaculei na tua alma imortal, / Um líquido quente, humano e imoral. /E feito a um livro de Sade te li inteira, / Ejaculando mel na tua boca alcoviteira….”  Era para alguém com quem eu queria fazer sexo. Foi assim, foi assim que acabou minha poesia, foi assim, há um ano, que entendi a tolice da poesia, a inutilidade do sexo e no fim das contas a tolice e a inutilidade de qualquer coisa. Minhas pernas incharam de tanto ficar sentado, já que proibiram a rua, a praça, e até os puteiros da cidade estão desertos. E não há poesia sem praças, se ruas e sem putas. O medo não constrói, e os tiranos sabem erguer muros de medo e cobri-los com arame farpado. E o poema, essa minha última coisa inútil terminava assim: “Ontem rompi o hímen da tua verdade,/ Tudo foi tão bom quanto à felicidade./ Hoje eu ainda te conto sobre o que vivi, / E mostro um livro que ainda não escrevi.” Esse foi o que escrevi. Depois disso eu morri. Preferi assim!

05/03/2021

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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