Crônica – Caminho Suave

A angústia que não larga, a boca amarga e o cigarro que a gente traga. Trago comigo ainda um sonho, mas feito aqueles de padaria, azedou o creme. O creme não compensa e o que compensa é o que? Não sei, mas em compensação brinco com as palavras porque gosto de brincar. A brincadeira é minha e não deixo ninguém mais brincar. Quer brincar? Então pegue outras palavras e vá brincar em outro lugar. Brinque com as suas próprias palavras e não com as minhas. As minhas me pertencem, minha mãe me deu. Eu era criança, era pequeno e era doente. E minha mãe passava roupa e na outra ponta da mesa eu aprendia a escrever. E eu achava que as letras eram meus brinquedos. E eram mesmo.

Os melhores brinquedos que eu já ganhei. “Caminho Suave” Nunca foi suave esse caminho de brincar com as letras, depois com as palavras, mas foi o caminho que eu escolhi. Nem foi tanto escolha, mas um processo natural. Minha mãe passava roupa das vizinhas e ganhava um trocado. E eu, que aprendia a ler e escrever naquela cartilha, nenhum. Minha mãe sorria e eu aprendia. Não tinha noção do caminho, queria apenas brincar, gostava daquela brincadeira. O som das letras, primeiro separadas e depois juntas, era belo. Minha mãe cantava e eu soletrava. Uma bela cena doméstica, coisa de filme francês na periferia de São Paulo. Sabia que um dia eu iria conseguir ler aqueles livros que estavam no bojo do sofá-cama. E um dia consegui. E depois, de “A Tartaruga e o Gato”, passando por “Lone Ranger”, que foi chamado de “Zorro Americano”, presentes das minhas primeiras professoras, cheguei a Joyce e Calvino. E também passei pelas palavras perigosas de Marx, pelas indecorosas dos Arthur, Miller e Rimbaud; pelas incestuosas de Augusto e Genet; pelas vertiginosas dos Charles, Baudelaire e Bukowski e sem contar, é claro, com as maravilhosas de Edgar e Friederich.

O caminho nem sempre era suave, mas era o caminho que eu queria. E nem sabia ainda o que era angústia, cigarro e dor de cabeça. Não tinha amigos, apenas livros; não tinha heróis, apenas livros; não tinha problemas, nem namorada, nem dinheiro, apenas livros. E sonhos que não azedavam.

Ainda hoje gosto de brincar com as palavras, adoro quando as espremo e aperto e elas gemem, gritam, choram e riem. São belas e são vivas. Quase que diariamente, sento-me a mesa, apanho uma porção delas e começo a colocá-las umas ao lado das outras até chegar ao final de uma linha, depois embaixo delas outras e outras e no final tenho um brinquedo pronto, vivo e eterno que por vezes dou nome de poesia. Brinco e brinco com esse meu novo brinquedo de armar até a noite, quando ele passa a ter vida própria. Então eu o liberto para que outras crianças crescidas como eu e talvez também angustiadas com seus sonhos que azedaram, possam brincar com o mais magnífico brinquedo que um ser humano pode ganhar.

E sempre agradeço a minha mãe, não por ter me mostrado o caminho da vida através de seus rígidos conceitos éticos e morais, pelos tapas rústicos e pelos beijos carinhosos, mas a agradeço pelo maior e melhor brinquedo que já ganhei na minha vida, um brinquedo que nunca irá se partir, nunca irá quebrar: “Caminho Suave”.

23/10/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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