Crônica – Carta de Um Velho Safado a Uma Barata de Bar

Olá, querida barata:

Estou lhe mandando a presente afim de lhe contar o quanto foi importante o nosso encontro de ontem á noite, quando eu tinha bebido demais, fumado de mais e amado de menos.

Sabes, querida barata, que aquele bar onde nos encontramos carrega por aquelas imundas e gordurentas mesas e balcão, histórias que apenas as baratas e a sarjeta da rua em frente conhecem.

Minha cabeça dói, amiga barata e acaso a sua também doa ao mexer suas antenas, não ligue, em poucas horas ou depois de outro porre, passa.

Hoje, escondida pelas frestas ao lado da pia imunda da cozinha do bar, certamente não lembrarás mais de mim e sei que outros bêbados solitários encontrarão em suas antenas, os ombros que precisam.

Têm horas que penso que sou igual a uma barata, mais porque nós humanos lhes achamos imundas e doentias, menos porque respeitamos sua capacidade de sobrevivência; mais porque as tememos, menos porque as respeitamos por sua capacidade de alimentar de absolutamente qualquer coisa, enquanto precisamos comer em bares e plantar e esperar.

Querida amiga, a solidão humana é coisa que apenas as baratas compreendem e sei que quando escutastes sobre minha solidão gargalhaste de um jeito a querer dizer “Estou certa disto!”.

Sabes, amiga barata de balcão de bar, sou apenas um velho safado, nem carteiro nem poeta, apenas arremedo de escritor. Mas como escritor escrevo e como o carteiro entregava cartas ao poeta, lhe entrego esta, certo de que com o mesmo respeito que o poeta tratava o carteiro e suas cartas, tratarás a mim e minha carta.

E, amiga barata, sou apenas um velho safado, carteiro da ilusão, da angústia e da solidão. Sabes, querida amiga que encontrei naquele balcão fedorento e gordurento, queria lhe agradecer por escutar minhas queixas e minhas mágoas, por ficares ali, parada, quieta, escutando cada palavra que a embriagues me impunha, me trazia á boca e eram pronunciadas com dificuldade.

Obrigado por ficar ali, apenas mexendo suas antenas, sem censura nem pudor. Queria lhe agradecer por bebericar minha bebida em goles tão pequenos, por andar de um lado ao outro do balcão tomando conta de mim, quanto a bebida me fazia dormir; por andar nas bordas do meu copo tomando conta dele, porque afinal quem beberia num copo em que uma barata andara?

Queria lhe agradecer porque quando finalmente minhas pernas responderam aos impulsos do cérebro embriagado e responderam mesmo que trôpegas aos passos, também correstes de volta a sua fresta junto a pia da cozinha do bar, de um jeito a me dizer “Bom dia!”.


Queria saber, querida barata de bar cujo nome – igual a de tantas putas com as quais dormi – desconheço, sobre o que achastes daquele livro que eu portava e que passeastes pelas páginas abertas, um pouco invejosa porque não falava de ti, mas de moscas de bar. Grande injustiça aquela, realmente! É é por isso que decidi lhe mandar esta carta e espero que a leia antes que o dono do bar descubra teu esconderijo, logo ao lado da pia da cozinha, onde ontem á noite não me deste um beijo de bom dia!

Sei que por sua coloração – e eu andei estudando sua espécie do mesmo que jeito que estudas a minha – também és uma veja velha barata safada. Aliás, porque me refiro a você no feminino, se nem sei seu sexo? Mas realmente não importa que sexo um amigo tenha ou se é uma barata ou outro ser, mesmo que humano. O que sei é que pensas, porque mexes as antenas o mesmo jeito que eu quando penso, balanço os braços. E sei mais ainda, que fantástica amiga serias por ter três pares de braços (ou seriam três pares de pernas?).

Não ligues, não, ás queixas deste que lhe manda esta carta, sou apenas um bêbado, um velho safado em busca de uma paixão perdida. E uma paixão eterna e etérea, a paixão pela vida, perdida – a paixão ou a vida – em um tempo em que eu não era nem velho nem safado, nem bêbado sequer era. Aliás o que eu era era um não ser, mesmo que um ser humano, enquanto sempre fostes e serás uma barata de bar.


Não mostres, minha cara, esta carta a outras baratas e principalmente a outros seres humanos porque, principalmente estes, hão de dizer que além de um velho safado, sou um velho louco, conversando com baratas. Certamente irão dizer que a bebida e a solidão embotaram minha mente a ponto de ter delírios e, embora digam que não, irão incluir minha carta em um fabulário geral do delírio cotidiano. Guardes segredo, amiga. Mas não o segredo dos padres, mas o segredo das adúlteras.

Quando quiseres, abandonas a fresta próxima a pia nojenta e gordurenta do bar onde a conheci e chegues a minha morada. Ali terás o abrigo em uma fresta próxima de minha cama, onde meus pesadelos acompanham as noites em que não durmo embriagado. Terás ali papel e bebida, que é tudo o que precisam um escritor e uma barata. Serás então minha confidente de todas as noites, sem que eu precise beber debruçado num imundo balcão de bar afim de poder me escutar.

Assinado, Charles Chinaski

5/11/2001

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

DEPOIMENTO

Barata é um batalhador da cena underground, um guerreiro, sempre lutando contra expectativas, mas se favorecendo de uma inteligencia interminável !!! Parabens! (Facebook - 2014)
Renato Menez
São Paulo - SP
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