Crônica – Cem Anos de Podridão

Ontem foi Dia do Poeta, cumprimentem atrasado o vate
Porque aquele que chega por ultimo é mulher do padre.
E sabendo que braço que apanha é o mesmo que bate
Deixem-me dormir mais cedo porque ainda é de tarde.

Não comemorem do Dia do Poeta. Há tempos não existem mais poetas. Apenas uns escrevedores de versos tolos. Como se fossem receitas de bolos. Sem fermento. Sem gosto. Não gosto de bolos poéticos. Sem recheio. Sem receio. De magoar. Falsos poetas de teclados de computador. Não há mais salas de chá. Nem de café. Apenas poetas de boteco. Que adoram Charles por ser bêbado. Não por ser poeta. Desculpas de idiotas. Não de poetas. Paris foi dominada. Pela desordem. Pela desarte. Em Marte não há poesia. Nem na Terra. De ninguém. Não diga amém ao poeta. Não diga a ninguém. Ninguém é poeta. Num tempo sem poesia. Computadores não podem criar poesia. Mesmo que possam escrever poemas. Poetas modernos são computadores. Binários. Zeros e uns apenas. Enfileirados. Uns atrás dos zeros. E os zeros atrás dos uns. E entre uns e zeros. Sobra o nada. Absoluto. Da poesia hodierna. Tão moderna. Que nem existe. A revolução russa acabou com a poesia. Não há o que ser feito. Não existe poesia no coletivo. Ato efetivo. Lenitivo. Coercitivo. Poesia coercitiva. Incentiva o todo. Não há poesia no todo. Só no uno. Não existe o todo. Nem o tudo. Porque tudo. É apenas o um. Multiplicado. O rei está morto. Em Portugal. Com um saco de terra brasilis no bolso. Caminhando por Lisboa. Com saudades do Império. Não há poesia no socialismo. Não há poesia social. Isso é pessoal. De Pessoa pra pessoa. Ressoa. Como vento. Soprando nas areias do tempo. Do tempo em que tempo tinha. E não era apenas o segundo. Era o primeiro. Viva o rei. Viva o império. Abaixo o imperialismo. Abaixo da linha. Do Equador. Abaixo o império da dor. Do ditador. Que não tem cor. Abaixo o ismo. O histerismo. Desses tempos sem supor. Em que o andor é de barro. Não o santo. E para espanto. Do comunista. Do consumista. De celular chinês. Andando de camiseta do Che. A poesia morreu. Há cem anos. Cem anos de solidão. Cem Anos de Podridão. De imensidão. Do nada. Em que tudo. É falso. Plástico. Drástico. A poesia morreu com a modernidade. Com o modernismo. Com o hedonismo hipócrita. Mentiroso. Desastroso. Trocaram de mão o carrasco. A mão direita é a que alisa. A esquerda corta a cabeça. Ou oposto. Ou o posto. Não há gosto. Nem em Agosto. Nem em Janeiro. E como não existe mais poesia. Deixem de comemorar. O Dia do Poeta. Quero minha parte em dinheiro. Faço minha parte do trabalho. Agora quero o capital. Pecado capital?

21/10/2017

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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