Crônica – Cem Folhas

(Eu trago comigo um par de cadernos

E cada um deles tem certas cem folhas.

Nelas eu anoto todos meus sonhos eternos

Marcando em cada uma minhas escolhas.)

“Na outra linha, parágrafo, dois dedos da margem!” Ordenou a mestra de pernas cruzadas sobre a mesa. E eram belas as pernas debaixo daquela mini-saia. E eu a comia com a mão todos os dias depois da escola.

Eu tinha comigo um par de cadernos com capas de papel amarelo. Em cada um deles, matérias de escola. Mas em ambos, rabiscados na margem, no espaço dos dois dedos, nomes de meninas de mini-saias, uniformes de colegial, que depois das aulas, eu lembrava trancado no banheiro.

Os cadernos tinham cem folhas, mas depois de algum tempo, algumas eram arrancadas e usadas para limpar meu esperma ainda incolor. E os nomes das meninas e da mestra iam parar no cesto de lixo, junto com o esperma, meus sonhos e minhas escolhas…

À margem das folhas, onde eu anotava com letra miúda as minhas escolhas. Eu agora sabia escrever, e jamais as mestras e as colegas de escola e suas mini-saias estariam imunes à minha caneta… E a minha punheta.

(Tenho poemas escritos sob todas as formas.

Em letra de forma, escritos fora das normas.)

Depois de mais de quarenta anos, as quatro da manhã eu perco o sono. Onde andam minhas folhas, por onde andam minhas filhas? Não tenho folhas, nem filhas e agora? Onde andam a mestra e as alunas? Ainda usam suas mini-saias? Resta o computador, monstro negro, inerte e silencioso! Sem punhetas, sem professoras  e sem alunas de mini-saias. Apenas o computador. E poemas sem forma nem formato. Digitados em um teclado cujas teclas estão apagadas de tanto usar.

Pobre computador!

Penso na morte e sobre o quanto eu a conheço! “Prazer em conhecê-lo!”, disse ela quando apagou a luz e tirou a roupa. Seus lábios estavam pintados e lambuzados de esperma. Não tinha uma foice nas costas, mas marcas de dentadas e unhas. E eu disse: boa noite, Morte! Até amanhã! Durma com os anjos!

Pobre Morte!

Deixei uma nota de cinquenta em cima da mesa de cabeceira e sai, fechando o cinto e me perdendo pelas esquinas da noite. Até amanhã!

Pobre eu!

02/03/2013

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

5 1 Vote
Article Rating
Assinar
Notificação de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários