Crônica – Censura? Sempre e Mais…

“Constatamos que seu perfil apresenta conteúdo que pode ser impróprio para alguns usuários. Por isso, os visitantes verão uma mensagem de aviso antes de acessarem o seu perfil. Caso você não concorde com isso, confirme sua identidade para remover esse aviso. Saiba Mais»”

A frase acima apareceu em meu perfil do Orkut ontem. Rapidamente percebi do porque: um álbum que criei, com o nome de “As Mulheres da Minha Vida” continha inúmeras fotos de mulheres, musas do Rock e dos seriados, como Janis Joplin, Judy de Perdidos no Espaço, Barbarella, Mafalda.. E as inusitadas mulheres “A Morte” – ela mesma –  e Madalena, aquela mesmo das histórias bíblicas.

Quarenta e quatro fotos sem nenhuma apelação, digo de passagem. Os possíveis porquês da Censura do Orkut: uma foto da capa da revista Rolling Stone de 1969 ou 70, onde é pouco definido um peitinho; dois desenhos de Betty Boop com seios de fora; uma de uma hippie em Woodstock, uma foto de um tumulo com uma estátua de uma mulher nua; e por fim um quadro de Madalena nua… Parece bem pouco para ser taxado de “conteúdo impróprio”, como se ali eu houvesse colocado algo atentatório, como as inúmeras páginas de garotas de programa.

O Orkut solicita a inserção de um numero de celular para que eu confirme minha identidade e retire o aviso. Sim, informando o numero de celular eu então estria liberado do tal aviso… Muito curiosa atitude… Um número de celular garante o que ao Sr. Büyükkökten, nascido na Turquia em 1977, homossexual assumido e que ficou milionário com uma rede que basicamente é sucesso no Brasil, onde contabiliza mais da metade dos usuários do mundo.

Interessante é a biografia de Orkut Büyükkökten na Wikipedia: (http://pt.wikipedia.org/wiki/Orkut_B%C3%BCy%C3%BCkk%C3%B6kten) “Conceitualmente a rede de relacionamento teve como base os Sistemas Não-Lineares e da Geometria Fractal, oriundos da Teoria do Caos. No âmbito relacional, o projeto reflete a experiência dos Six-Degrees. A “teoria dos seis graus de separação” diz: as pessoas no mundo podem ser conectadas a qualquer outra por uma rede de cinco intermediários. ” Em seguia a “Enciclopédia Livre” fala da ligação homossexual de Orkut e de seu casamento com o namorado.

Então chego ao meu ponto condutor e o que instigou a presente crônica: em 2008, a organização inglesa Internet Watch Foundation (http://www.iwf.org.uk/) recomendou aos provedores ingleses associados o bloqueio da  página do álbum Virgin Killer da banda Scorpions na Wikipedia. (http://en.wikipedia.org/wiki/Virgin_Killer), por mostrar a capa que foi polêmica há 30 anos atrás, por mostrar uma menina nua. “Por causa desta recomendação, alguns dos maiores provedores de acesso à Internet do Reino Unido bloquearam o acesso à esta página específica.”

O que chama a atenção nas recentes polêmicas desta espécie é que aparentemente, nos mais de trinta, quarenta anos que nos separam de inúmeros eventos culturais polêmicos, a sociedade mundial parece não ter andando adiante nem um centímetro. A sociedade não mudou, ou o que não mudou é ainda a ânsia de determinados senhores continuarem a quererem determinar o que os outros podem ou não ter acesso? O combate – necessário – a pedofilia na Internet é apenas a desculpa que esses senhores encontraram para dizer aquilo que podemos ou não ter acesso. Nos anos da ditadura burra brasileira era fácil, bastava um jagunço em uma redação de jornal e editora, ou mandar prender jornaleiros e jornalistas e incendiar bancas de jornal e pronto. O controle sobre a Internet é muito mais difícil o que necessitaria de uma inteligência maior desses senhores, coisa que eles não têm. A reprodução de uma capa de disco de 30, 40 anos atrás, ou da capa de uma revista… Falta inteligência a essas pessoas para identificar e separar joio de trigo. A imagem de um quadro de Maria Madalena, o quadro “A Origem do Mundo”, então…

Agora, que interessante a definição de “Censura” na própria “Enciclopédia Livre”: “Censura é o uso pelo estado ou grupo de poder, no sentido de controlar e impedir a liberdade de expressão. A censura criminaliza certas acções de comunicação, ou até a tentativa de exercer essa comunicação. No sentido moderno, a censura consiste em qualquer tentativa de suprimir informação, opiniões e até formas de expressão, como certas facetas da arte. O propósito da censura está na manutenção do status quo, evitando alterações de pensamento num determinado grupo e a conseqüente vontade de mudança. Desta forma, a censura é muito comum entre alguns grupos, como certos grupos de interesse e pressão (lobbies), religiões, multinacionais e governos, como forma de manter o poder. A censura procura também evitar que certos conflitos e discussões se estabeleçam.” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Censura). Muito correto, mas que parece que serve apenas como verbete para a “Foundation”.

Ainda sobre a “Enciclopédia Livre”, há pouco tempo atrás, a página sobre o documentário “Beyond Citizen Kane” (no Brasil, Muito Além do Cidadão Kane) (http://pt.wikipedia.org/wiki/Beyond_Citizen_Kane) estava marcada para ser suprimida porque segundo eles “Este artigo ou secção não cita nenhuma fonte ou referência…” Provavemente porque no texto, seguindo a linha de raciocínio do próprio documentário e dos fatos estranhos que decorrem de sua não exibição não Brasil.

No caso da censura á capas de discos, particularmente no Brasil, acredito ser interessante citar algumas passagens interessantes: Em 1974 a capa do disco “Jóia” de Caetano Veloso exibia um desenho dele, mulher e filho nus, e na contracapa uma foto. Imagem cândida que a censura mandou recolher, e em seu lugar a Philips colou simplesmente uma capa branca. Tom Zé, o polêmico, conseguiu driblar a burra censura ao colocar uma foto em seu “Todos os Olhos” que era na verdade um cu com uma bolinha de gude. A burrice não deixou barato e juntando a burrice da Censura com a da Gravadora, os discos da banda UFO tiveram os lançamentos dos discos “Force It” e “No Heavy Petting” fundidos em um só, na época: “Force It” mostrava um casal transando numa banheira e o outro um macaco. A inteligência dos arautos fez com que a bolacha de “Force It” fosse colocada dentro da capa de “No Heavy Petting”, e ai ninguém entendia porra nenhuma, porque os nomes das musicas não batia.

Centenas de polêmicas sobre capas de discos, principalmente na época do LP quando as capas eram propicias a criatividade se criaram, mas falamos de trinta ou até quarenta anos atrás? O que mudou? Com certeza, a burrice e o desejo de dominação de quem detêm o poder seja ele de quer forma for, isso não mudou.

Uma análise final: a censura, sob diferentes formas, sempre existiu e sempre existirá dentro da sociedade humana dominada por jogos de interesse egoístas, onde cada vez mais quem detém a informação detém o poder. O poder apenas muda de mãos e a Censura de nome e de feição. Não acreditem em qualquer coisa ao contrário. Não acreditem na liberdade de expressão sob qualquer forma. Em resumo: atualmente com a liberação sexual, que claramente vivemos você pode fazer o que quiser do seu corpo, mas não pode fazer o que quiser da sua mente.

10/26/2009

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

5 1 Vote
Article Rating
Assinar
Notificação de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários