Crônica – Certificado de Propriedade da Morte

Quando nascemos recebemos um certificado de propriedade. Pessoal e intransferível. O Certificado de Propriedade da Morte. Um bem único. E durante toda nossa existência o que fazemos é simplesmente pagar as prestações desse bem. Com sangue, com lágrimas, com suor… Todos os nossos atos servem para quitar esse Certificado. Comer, beber, transar, estudar, casar, trabalhar… São atos que nos aproximam mais e mais de recebermos esse “Documento”.

Não podemos transferir, vender, alugar, emprestar. É nosso. Nossa única e real propriedade. A vida? A vida não é nossa propriedade, a morte sim. A vida é o banco em que pagamos as prestações, a quem devemos sua hipoteca. A vida não nos pertence, embora viver nos pertença. Entretanto a morte nos pertence, mas a ela não pertencemos. Schopenhauer dizia que “O amor é a compensação da morte”. Um dia perguntei: e a morte, é a compensação do amor? Mas o amor é apenas uma das prestações que pagamos por nossa propriedade. Prestação gostosa de pagar, como o sexo, como as artes… Deliciosas prestações… Mas apenas isso.

E há também os juros que pagamos, por atraso nos pagamento. Não viver plenamente é considerado pelo Banco da Morte como juros por atraso no pagamento. E tal os mais cruéis bancos capitalistas, o Banco da Morte faz contas de juros sobre juros, mora sobre mora que nem o mais sádico matemático é capaz de calcular. O único problema com tal Certificado de Propriedade é que não sabemos o preço exato e muito menos quantas prestações iremos por ele pagar. Pode ser de alto custo àqueles cuja disposição para com a vida for fraca; pode ser baixo custo aos que compreendem o óbvio sobre o Contrato. Mas alto ou baixo tem um custo. E quanto ao prazo, também igual aos mais hediondos banqueiros, nunca terminaremos de pagar, a não ser no fim da vida.

A Morte, entretanto não tem credores, nenhum senhor ao qual possamos pedir adiamento de prazo, descontos, renegociações. É o dono do contrato e nos entrega o Certificado Final de Propriedade quando bem entende. Sem piedade, sem clemência.

O que é preciso é que encaremos a vida como encaramos os estudos. A Vida é apenas uma universidade paga, onde o diploma é a Certidão de Óbito, ou seja, o tal Certificado de Propriedade. Estudê-mo-la, então com afinco, prazer e determinação. Retiremos dela as melhores lições, aprendamos com seus melhores professores, busquemos as melhores notas. A aprovação não a cada ano letivo, mas a cada minuto, cada segundo. As provas não são mensais ou bimestrais, são diárias. Os exames, ora serão muito rígidos, ora muito fáceis. Reconheçamos os melhores alunos de nossas turmas, façamos deles nossos amigos. E busquemos sempre ser os melhores alunos da classe. Somente assim podemos ter uma formatura à altura. Não com festa, não com bailes, não com fogos de artifício, mas com o reconhecimento de que fomos os melhores que pudemos ser nessa escola. E que, mesmo que não recebamos uma placa numa parede, que sejamos lembrados por outros alunos. É nisso que consiste tudo.

31/07/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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