Crônica – Coincidência, Deus ou o Demônio?

Acredito que todos tenham escutado alguma história sobre alguém que escapou de um letal acidente por ter perdido o horário ou que, por exemplo, perdeu o avião porque a barra da calça descosturou na hora de sair de casa e escapou assim de um terrível desastre aéreo.

Sempre ficamos pensando sobre o que causa isso… dependendo de nossa crença, Deus, o Demônio ou apenas Coincidência. Existe também a “Lei das Probabilidades” e muitas explicações religiosas e psicológicas, forças ocultas, poder da mente etc. Mas quando consideramos algum fato “inexplicável”, tentamos explicá-lo sob algum ponto de vista, de acordo com nossa crença ou desejo. Muitas atitudes são às vezes tomadas em função de um fato desses e às vezes quebramos a cara com essas decisões.

Algo que tem me deixado altamente incomodado nas últimas 24 foi um fato que ocorreu ontem comigo: há exatamente uma semana terminara de forma pouco sutil um relacionamento que fora em sua maior parte pernicioso, quase doentio. Uma espécie de “amor bandido”, com sofrimento mútuo e otras “cositas mas”. Quando a gente termina um relacionamento deste melhor é procurar estar longe de qualquer coisa que lembre tal pessoa. E foi o que tentei fazer nos últimos dias, lutando contra aquela tradicional depressão e momentos de extrema angústia. Tal pessoa tinha cometido inúmeras “falhas” comigo, mas o meu emocional ainda pendia – e pende – muito por ela.

Procurando ocupar minha mente com outras coisas, sem sucesso na maioria das vezes, marquei um encontro com um cliente, às 11 horas da manhã, da sexta-feira, na Galeria do Rock. Era um encontro rápido e eu tinha um compromisso com uma consulta médica á 1 da tarde. Tempo suficiente. A pessoa de meu antigo relacionamento, desempregada durante os quase seis meses de nossa relação havia me dito no ultimo dia que havia conseguido um emprego em um shopping, que nem tive tempo de perguntar onde.

Quando saia da Galeria, meu celular tocou e era um outro cliente que pedia que eu passasse em seu escritório e retirar um cheque que estava previsto para mais de uma semana depois. Como estava precisando de dinheiro, decidi ir imediatamente. Apanhei o Metrô e me dirigi ao tal escritório, onde sabia que demoraria um tanto, pois a secretária desse meu cliente é uma pessoa muito inteligente e sempre que ali chego conversamos durante um longo tempo. Para meu espanto até, ela tinha deixado o cheque na portaria e tinha saído por algum motivo. Apanhei o cheque e me encaminhei á agência bancária na Av. Angélica, que costumeiramente tem um atendimento muito moroso. Mas naquele momento, apenas uma pessoa no caixa e o atendimento foi para meu espanto muito rápido.

Ao sair da agência, a chuva apertara e caminhei meio sem ligar para ela com intenção de pegar o Metrô na Estação Consolação, caminho sempre usado e lógico. Ao chegar a Paulista, na porta da estação e nesse momento sem ligar para o compromisso médico, decidi continuar andando… e debaixo de chuva. Passei pelas outras estações da Paulista e sempre que pensava em adentrar, desistia. Assim cheguei a estação Paraíso e fiquei durante vários minutos debaixo de uma árvore pensando a respeito daquela pessoa, o quanto sofrera com aquela relação… mas quanto eu ainda a amava. Lembro que pensei se aquilo era mesmo amor e coisas desse tipo.

Ao chegar a estação e pisar na plataforma, lembrei do compromisso médico e resolvi me apressar. Havia um trem parado, mas uma senhora com certa deficiência travou sem querer minha entrada e acabei perdendo aquele trem. Ao chegar na Estação Sé, com o intuito de apanhar um trem em direção á Estação Penha onde apanhar um lotação, fiz algo que também não costumo: me dirigir à ponta da plataforma.

Dentro do trem, chegando na Estação Tatuapé, um outro cliente liga e como eu não conseguia ouvir claramente a ligação, aproveitei que o trem abrira as portas, sai para a plataforma. A ligação demorou cerca de um minuto, mas o tempo suficiente para que aquela composição partisse. Apanhei o próximo trem e assim cheguei a Estação Penha, subi as escadas rolantes e novamente fiz outra coisa que não costumo: dar atenção àqueles vendedores de assinaturas de jornal. A conversa durou acho que uns dois minutos. Ultrapassei o bloqueio e demorei alguns segundos para acender o cigarro de uma senhora, coisa que normalmente não faria.

Caminhando totalmente desligado pela passarela que tem em um ponto uma escada rolante que sobe e uma fixa e adiante uma que desce e outra fixa. Normalmente desço pela fixa, mas resolvi seguir adiante e descer pela rolante. Tinha passado poucos metros desse ponto quando escuto uma voz que me gelou. Parei e lentamente virei o corpo e… Adivinhou? – era ela. Depois de uma rápida conversa que não vou relatar, pois não é o objetivo deste artigo, segui meu destino pensando sobre aquilo.

Se qualquer “imprevisto” dos vários que detalhei, por menor que seja, pois se eu estivesse 10 segundos adiante não teria encontrado aquela pessoa, não acontecesse, eu não teria passado por aquela situação que com certeza me abalou um bocado. Qualquer pessoa que já passou por uma situação dessas entenderá bem o que estou falando.

Isso mexeu demais comigo e me pus a pensar sobre “Coincidência, Deus, Demônio”. Seria aquilo apenas coincidência? Minha mente inconscientemente teria atraído a ela, Era um sinal de Deus para que resistisse a “tentação”. Seria uma artimanha do Demônio para me empurrar para um caminho que sabidamente, era com muita dor futura e que poderia ter um desfecho até mesmo trágico?

12/4/2004

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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