Crônica – De Amor e de Sombras

Durante muitos e muitos anos acalentei o sonho de ter meus poemas musicados. Sou um apaixonado por música desde que me conheço por gente, mas não sou músico, não sei tocar nem flauta doce. Nunca tive paciência e disciplina para aprender tocar um instrumento, embora tenha feito algumas tentativas de aprender flauta e violão na adolescência. Decidi então que minha participação dentro da música seria de uma forma, digamos , indireta, escrevendo sobre ela, já que segundo algumas pessoas, não sei se sinceras ou puxa-sacos, eu escrevo bem. Se escrevo bem, tecnicamente falando eu não sei, apenas sei que escrevo com a emoção que norteia minha existência. O bem ou mal, deixo aos críticos e principalmente leitores decidirem.

Muitos amigos músicos corriam quando eu tocava no assunto, dando a desculpa que minhas letras eram longas ou com temática forte demais. A primeira concretização desse desejo se resumia “Sangue de Barata”, um Rock simples, que embora tenha ficado interessante, não retratava o espírito da letra e de algumas outras poucas, como a de Raul Cichetto que musicou “Aniversário”, um Rock bem interessante, e Renato Pop que musicou três poemas. Mas parecia que esse sonho, de algo durador, consistente, com uma pegada mais “profissional”, seria um desejo que jamais seria transformado em realidade. A Opera Rock Vitória é uma outra história, porque ali eu escrevera tudo deliberadamente para ser musicado, com todas as “intenções” detalhadas ao Amyr Cantusio Junior que fez parte das músicas e a outros artistas que compuseram outras.

Sempre soube da dificuldade de um musico pegar uma poesia e sobre ela, sem o direito de mexer na letra, criar uma composição musical. Tinha me conformado em não ter tal roupagem para minhas criações, ao menos com a forma que eu sonhara. Até que um dia, mandei e-mails a algumas pessoas oferecendo meus trabalhos. Uma dessas pessoas repassou o que recebeu ao musico Ciro Carvalho. Imediatamente ele ligou para meu telefone e começamos a conversar. Uma conversa longa e um ou dois dias depois eu recebia uma de minhas poesias com roupa de festa… Ou de gala: “Escafandro”. Essa poesia eu “escutava” dentro da minha cabeça e tinha até mesmo detalhes de efeitos de produção, mas nunca conseguia um músico para passar essa idéia. Passou um tempo, Ciro deu uma sumida e mais uma vez eu pensei que meu sonho de letrista tinha naufragado.

Há poucos meses, no inicio de 2012, decidi reformular meu site e colocar ali tudo o que eu tinha feito ou participado. Encontrei aquela gravação e enviei-lhe um e-mail solicitando a divulgação da mesma. Ele não apenas respondeu ,como um ou dois dias depois me mandava outra musica, depois outra e outra… E depois mais duas e mais uma…. Em pouco mais de dois meses ele me mandou mais de quarenta. O que pensei e senti ao escrever cada uma daquelas poesias, muitas delas longas, extensas, foi captado por Ciro, um grande músico, dono de uma voz esplendida e de uma sensibilidade artística fora do comum.

E estamos agora neste ponto: escolhemos dezenove dessas músicas e certos de que se tratam de músicas de qualidade superior, que falam de emoções de forma sincera e sem pieguice e auto indulgência. Emoção e prazer. De fato, estamos à bordo de uma nova Música Popular Brasileira, acomodada entre o marasmo criativo e o sucesso fácil de musicas sem qualidade. Estamos sim, numa era conturbada, em que os próprios conceitos de amor estão pervertidos e a idéia do que são sombras também. Portanto, estamos de fato na era “De Amor e de Sombras”.

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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