Crônica – Dias Em Que A Gente Nem Consegue Escrever…

Sabem aqueles dias em quem nenhum lugar é bom o suficiente? Aqueles dias em que pouco importa se o tempo é frio ou calor, se chove ou se faz sol? Em que nenhuma amante é gostosa o suficiente, nenhuma música é alta o bastante, nenhuma poesia é ácida ou adocicada quanto precisa? Aqueles dias em que nenhum filme pornográfico excita, nenhuma mulher lhe dá tesão o bastante para levantar a porcaria do pinto? Sabem aqueles dias em nenhuma coisa que precisa ou pode ser feita, consegue ser? O desejo de chorar parado nos olhos, o desejo enorme de gargalhar também embolado no peito? Uma sensação de dor que não dói, de tesão que não chega, de dor de barriga sem merda? Algumas pessoas chamam de depressão, outras de frescura e outras ainda, mais sábias, de solidão! Aqueles dias em todos os ossos do corpo, e não apenas ossos, mas todos os órgãos também, parecem ter sido partidos, quebrados, esmagados. Sabem aqueles dias em que um banho não limpa, uma toalha não enxuga

e uma roupa incomoda? Em que a toda nudez é castigada e toda mudez ensurdece? Dias longos demais e curtos de menos. Pensar dói, agir incomoda e é um sacrifício extremo. Sabem aquele dias em que a vida parece bobagem mas a morte também? Dias e dias sem noites no meio, sem noites e sem luar. Dias sem luar, noites sem sol… Dias de loucura ou de extrema lucidez? Qual é a loucura por trás da extrema lucidez? Qual é a lucidez por trás da extrema loucura? A cama tem espinhos, a cadeira dói a bunda e andar cansa demais. Um desejo de estar mais só, quando se está sozinho, um desejo de estar ao lado de um monte de gente, mas não agüentar a companhia de ninguém. Beber não basta, não sacia… Entorpece mas não sacia. Comer não importa…. Mata a fome mas não alimenta. Masturbação? Não, nem pensar! Um disco da Maysa ou do Sisters Of Mercy, um litro de Cynar, gelo e limão e… Uma arma carregada junto ao teclado, ao alcance da mão. Mas nesses dias, em que tudo acontece e nada acontece, a coragem também não acontece. A dor é tão profunda que a gente nem alcança. Um gelo e um calor que não podem ser medidos. Quente demais e gelado demais. Nada! Uma sensação de nada e de tudo ao mesmo tempo! Estar morto é pouco, pouco é pouco, muito é muito e nada é demais. Sabem aqueles dias em que a gente nem consegue escrever?

10/21/2007

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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