Crônica – Divagações de Um Burro Sobre a Independência do Brasil

Sim, sou um Burro. Também conhecido por “Asno” embora meu nome  original seja um tanto pomposo: “Equus Africanus Asinus”. Também chamado de “Jumento”, “Jegue”, “Jerico” e outros nomes que o Bicho-Homem sempre associa com a falta de inteligência e de capacidade mental.

Sou um mamífero que caminha sobre quatro patas, tenho focinho e orelhas compridas e sou utilizado desde tempos pré-históricos como animal de carga e montaria. Minha mãe é a “Mula” e meu pai o “Cavalo”, coisa que tem gerado por todas as minhas gerações, um crítico problema de identidade.

Mas sou um Burro e tenho servido ao Bicho-Homem, carregando suas tralhas e seu peso por caminhos e trilhas que a linhagem de meu pai não seria capaz. Sou forte, sou rijo e sou, conforme algumas definições, teimoso. E sou teimoso porque não me detenho por nenhum obstáculo, determinado a cumprir minha missão.

O Bicho-Homem, em determinados países, chama seus dicionários como “Pai dos Burros”, porque sem mim estariam iletrados, mas conforme falam, meu pai é um Cavalo, portanto, nem sequer aí é dado justiça a mim.

Ao Bicho-Homem chamar com meu nome a alguém é uma ofensa mortal, pois o estaria associando a um indivíduo pouco inteligente, estúpido, teimoso, ignorante, com pouco entendimento, “sem conhecimento geral nem criatividade”. Coisa que decerto não sou, pois se, como admiti anteriormente, sou teimoso por natureza, essa teimosia é por minha determinação e força em vencer obstáculos, não em insistir em coisas que não são de meu conhecimento, ou em atos contra minha própria natureza.

Até mesmo a História do Brasil me defenestrou, me humilhou e colocou em meu lugar a carregar nos ombros o “libertador”, a figura do meu pai, que de fato não teria capacidade nem resistência para subir uma Serra carregando um Bicho-Homem, mesmo sendo ele o filho querido de um Rei. Ainda mais que aquele era um tanto bem alimentado e prepotente. E prepotência pesa muito sobre os ombros de um Burro…

Esqueceram de mim na história. E olhem que eu ainda fiquei ali, ao lado dele, enquanto ele cobria uma de suas fêmeas antes da jornada, e também fiquei ali ao seu lado enquanto ele soltava seu estrume bem próximo às margens plácidas de um regato.

Poderia eu sentir-me honrado em ter transportado em meu lombo a bagagem e a bunda Real do Imperador Dom Pedrinho em suas jornadas em busca de foder as não tão nobres bucetas de suas concubinas, que acredito eu, o Burro, eram extremamente importantes à nação. Mas meu orgulho em carregar tão nobre carga não foi aceito nem entendido pelo artista da Corte, que ao copiar um quadro francês com intenção de retratar o heróico momento da Independência, esqueceu que eu também tinha importância na história e deixou de lado a minha figura.

Acho, por fim, que sempre fui muito importante à história do Brasil e tive papel importante em inúmeras de suas “guerras”, principalmente naquela que foi essencial à libertação do Brasil das mãos daqueles que hoje, à nível de troça, eles também chamam por meu nome. Uma guerra travada dentro de palacetes e casas de damas, e que foi ganha apenas por aquele príncipe garanhão, feito meu pai, que decididamente e indefinidamente transformou o Brasil numa pátria não de burros, que isso não sou, mas de idiotas, covardes e inúteis, que acreditam que tirar o Burro do quadro e colocar o Cavalo irá mudar sua história… E seu destino.

Eu não sou Burro!

 

Outras Reflexões do Burro:

Não sou desprovido de inteligência, apenas não tenho “consciência de espécie”. Acaso a tivesse, acaso tivesse eu noção da minha força, decerto não admitiria a dominação por uma espécie fraca quanto a do Bicho-Homem.

Nasci no Brasil e, portanto sou definido como “brasileiro”, mas nenhum orgulho tenho disso. Aliás, o que sinto é uma imensa vergonha.

Não sei escrever, nem ler. E se soubesse eu deixaria de ser Burro? Decerto que não, pois a “burrice” – olhem que absurdo, criarem um substantivo feminino associado a mim -, não é extinta apenas pelas letras, mas pelo acumulo de experiências culturais, pessoais e sociais.

A maior parte dos países do planeta tiveram suas independências conquistadas depois de guerras sangrentas, sangue de irmãos… Mas a do Brasil depois de uma trepada e uma cagada às margens plácidas de um rio, declarada por um príncipe playboy… E querem que as coisas sejam diferentes por aqui! Pensem nisso!

Seria a Marchinha “Dom Pedrito”, gravada em 1949, composta por Djalma Esteves  e Célio Monteiro e gravada pelos Trigêmios Vocalistas, no mesmo ano, uma critica à “nossa” independência???

“Lá vem o Dom Pedrito,
Montado num burrico,
Cantarolando voi,
No rancho há muito vinho,
Há doce e salgadinho,
E a Chica se casou. (…)

7/9/2012

 

Divagações de Outro Burro

 Sou eu o Burro, afinal. Cansado de carregar putas e imperadores nas costas e na hora de aparecer no quadro sempre são os cavalos que são exibidos. Pomposos, com suas ferraduras resplandecentes. Sou eu o Burro, afinal. Um Burro cansado de ser burro. Um burro cansado do peso carregado durante uma existência inteira. Um burro cansado da chibata e da focinheira, dos arreios e da algibeira. Sou um burro, velho e cansado dormindo na cocheira. Sou eu, por fim, o Burro. Cansado das serras, das terras e do cativeiro. E burros não marcham. Deixa de ser Burro, homem!

9/9/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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