Crônica – E Por Falar em Fracasso

Quando meu amigo Jorge Rocha pediu um texto sobre “Fracasso”, confesso que ingenuamente pensei:

“É fácil! Sobre fracasso eu entendo. Afinal tenho uma existência que, digamos, não é o seu antônimo.

Mas dessa aparente facilidade inicial em construir um texto até o desespero da última noite sem dormir, pensando sobre de que maneira construir as frases e, principalmente, sobre quais pontos de minha auto-proclamada existência fracassada devo discorrer. Derreto a memória tentando alcançar lembranças de fatos que ilustrassem a quanto fracassada foi e é a minha existência, pensei em falar sobre os meus inúmeros fracassos amorosos, sobre insucessos de ordem profissional, sobre o dinheiro que nunca consegui acumular, sobre as poesias que nunca consegui escrever, mas o fracasso da minha qualidade de escritor parece que foi o maior dos fracassos que me acometeram até agora.

Durante a madrugada insone, atordoado e confuso, olho pela janela e um mendigo rasga sacos de lixo até encontrar restos do meu almoço. Com as imundas mãos, enfia na boca aqueles restos podres de comida e me sorri com restos de dentes, parecendo agradecer. Depois dá alguns passos na noite gelada com seus pés descalços e seu saco de lona imunda.

No bar em frente outros fracassados bebem, fumam, falam do fracasso de seu time de futebol e depois vão despejar seus fracassos nas vaginas das fracassadas prostitutas de batom vermelho e meias finas desfiadas que os esperam na esquina , ou de suas fracassadas esposas de grampos nos cabelos e aventais rasgados que os esperam em suas casas.

Permaneço ali, fumando, olhando a noite que agora parece mais escura que antes, olhando o mendigo, os bêbados e as prostitutas… e meu cigarro queima a ponta dos meus dedos.

“Pensa! Pensa!” Digo baixinho a mim mesmo. “Pensa em sua existência medíocre e conseguirá discorrer sobre o fracasso”. “Pensa sobre aqueles bêbados ou sobre aquelas putas”. Tento escolher outro alvo para o meu grande texto sobre o fracasso.

Fracasso, segundo o dicionário com capa solta que eu procuro significa: “desastre, desgraça, ruína, perda ou mau êxito, malogro”. Interessante é que o dicionário confundiu mais ainda minha cabeça e tratou de enterrar de vez minha capacidade de criação.

– Ah, então quer dizer então que um fracasso é uma desgraça!

– É. E também desastre e uma ruína.

– Sim, sim, fracassar é causar desastres e ruínas.

Depois desse infrutífero e fracassado diálogo mantido dentro de minha cabeça, apanho meu caderno e passo a discorrer sobre o fracasso. E a cada frase que tenho que escrever, mais cresce minha sensação de fracasso em escrever. Já escrevi duas páginas e meia do caderno e sequer consegui encontrar o real fio condutor do texto, e continuo a procurar a fonte da inspiração repentina que sempre salva escritores medíocres de total fracasso. Mas, nada, nem um fio de esperança e inspiração alentam…

Vou até a estante e percorro com os dedos os livros enfileirados em busca de algum que possa colocar em minha mente alguma semente criadora. Também… Ah, deixa pra lá…!

É, eu poderia usar a poesia para falar sobre fracasso. Afinal que arte expressa melhor o fracasso do que a poesia?! É, a poesia. Poderia por exemplo rimar coração com inspiração, medo com segredo… Mas e o fracasso? Fracasso… Fracasso rima com quê? Fracasso não rima! Portanto fracasso não é poesia nem poético?

A noite parte, um dia nublado e gelado começa a tomar seu lugar. O mendigo desaparece, carregando seu saco lotado sabe-se lá de quê. Talvez aquele saco esteja cheio de seus fracassos, talvez não! Talvez o que aquele mendigo carrega naquele saco de lona imunda sejam os sucessos, que ele esconde deixando que todos pensem que é um fracassado; o bar fecha e os bêbados fracassados vão embora, alguns abraçados às prostitutas que ficam paradas na esquina desfilando seus fracassos pelas ruas ainda desertas, mas que daqui a pouco estarão cheias de fracassados em busca de dinheiro, poder e outras coisas efêmeras para que se sintam pessoas de sucesso.

É, agora preciso dormir um pouco, dentro de algumas horas preciso estar a postos, encarando mais um dia de fracassos em minha existência de insucessos. E caso ache que meu texto é um fracasso, um completo desastre, prometo que lhe perdôo por seu sucesso.

6/18/2001

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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