Crônica – Encontro Marcado

Saí para encontrar um amigo, mas ele ainda não chegou, ou já passou. Fiquei esperando tempo grande, nem sei quanto. Liguei, o telefone não atendeu, e até pensei: o que aconteceu? Esperei, nada. Mais um pouco eu espero, tornei a pensar. Não chegou. Fiquei preocupado, que ele não usa máscara nem camisinha, sobre o que teria ocorrido. Teria morrido? Esperei, esperei, esperei. Meu amigo não veio. Perguntei ao fiscal do ônibus: conhece meu amigo? Ele perguntou: que amigo? Eu disse: se fosse seu amigo saberia, muito obrigado, agradeci, e fiquei plantado, feito um antigo carvalho esperando meu amigo crescer e aparecer. Aparecendo seria o bastante. Fiquei um dia inteiro esperando. Perguntei ao vendedor de frutas, duas putas e um monte de biscateiros de uma obra, e ninguém sabia o paradeiro, do meu amigo verdadeiro. Onde estaria? Eu o mataria se o encontrasse, pensei engraçado e desgraçado. Ele não chegou, nem avisou que não viria. E como ele mesmo diria, atrasado em festa sempre chama mais a atenção. E se ele queria teria, a tal atenção, mas porque não chega logo. Podia demorar, mais um dia inteiro era demais. Decidi esperar mais. Ademais, amanhã era outro dia, e quem sabe chegaria, meu amigo do peito, um bom sujeito, mas um tanto afeito a um prefeito que tinha feito o imperfeito e desfeito o feito. Me preocupavam as amizades do meu amigo, até comigo. Amanheci outro dia esperando, que nada tinha de mais importante a fazer, e nem a desfazer. Tornei a perguntar a uma montanha de gente que ia ao trabalho, que era segunda-feira, e ninguém sabia, ninguém conhecia e ninguém via o meu amigo. Meu melhor amigo. Ele não tem nome, perguntou o homem do açougue, e eu respondi que nunca tinha perguntado. O açougueiro passou a faca na outra e voltou a cortar sua carne que sangrava a cada corte e eu já estava sangrando de tanto esperar.Só espero mais um pouco, que sujeito louco. Eu não tinha tanto tempo assim para esperar, que nunca viesse, ou só quando pudesse ou mesmo quisesse. Já era o terceiro dia, e eis que meu amigo apareceu, feito um cristo ressuscitado e me abraçou como se fosse apenas o que éramos: velhos amigos que se encontram… Foi só aí que percebi que não tínhamos marcado nenhum encontro, mas eu estava ali, e esperaria o resto da minha existência que um dia ele aparecesse.

11/07/2021

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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