Crônica – Enquanto Os Cães Passam as Caravanas Ladram!

O Pequeno Cão Cinzento cuidou de seus donos durante anos a fio. Tinha ele um emprego que era para sustentar seus donos que sequer tinham a atitude humana, ou melhor canina, de afagar suas costas quando ele chegava do trabalho com o jornal do dia entre os dentes, abanando o rabo, feliz por ter uma família que, afinal ele sabia que era a única, ou de qualquer forma a melhor do mundo. Afinal, era a sua família. A única que ele, o Pequeno Cão Cinzento conhecia.

E o Pequeno Cão Cinzento era feliz. Ao menos acreditava que era. Afinal seus donos eram muito bons com ele. Deixaram que ele pensasse que sua casinha era dele… E até o deixavam passear nos finais de semana… Mas nunca sem a coleira. E assim seguia sua Vida de Cachorro. (Aliás, ele adorava aquela música dos Mutantes, achava que ela para ele.). Uma vida de trabalho, pulgas e coceiras… Sem um afago, porque afinal ele era apenas um Pequeno Cão Cinzento.

Um dia, o Pequeno Cão Cinzento perdeu seu emprego… E como seus dentes tinham caído (Afinal de contas o dinheiro que o Pequeno Cão Cinzento ganhava era para sustentar seus donos, ávidos por moradia em bairros bons, boa comida, sofás e aparelhos de TV e uma série de coisas e não tinha sobrado para que ele cuidasse de seus dentes.) e ele já não tinha a mesma visão em função de sua idade, não conseguia arruma um emprego fixo. E foi assim, que de uma hora para outra ele, o Pequeno Cão Cinzento se viu na rua, companheiro das bêbadas, lambendo suas bocas, ninguém sabe se por desejo de carinho ou da bebida mesmo. Ou apenas tudo isso por pura solidão.

Uma pequena cadela abanou o rabo e como ela estava sempre no cio, o Pequeno Cão Cinzento a acompanhou, certo de que ali teria a paz e o carinho que lhe fora antes negado. Mas quando acabou o cio ela o mordeu e o atirou nas ruas… Pobre Pequeno Cão Cinzento. Estava de novo nas ruas, sem dono e ser uma casinha.

Enxotado, sem saber para onde ir, decidiu procurar sua antiga família que fingiu cuidar de suas pulgas e sarna. Ele apenas queria um cantinho pra dormir e poder estar em paz consigo e suas pulgas… E principalmente ter o afago de sua antiga família… Mas, ele agora não era mais o Pequeno Cão Cinzento que sustentava a casa… Ele vivera nas ruas e aprendera muito sobre dor e sobre o cio… E não podia mais suportar ficar deitado o dia inteiro, sem o direito e o dever de abanar o rabo. Decidiu que iria partir, pois sua antiga família realmente não poder entender que ele não era mais o Pequeno Cão Cinzento, mas agora era um velho e rabugento Grande Cão Cinzento.

Lembrou então de sua família e achou que poderia ali encontrar o carinho e a casinha de cachorro que seria a diferença entre as geladas ruas e as rodas de motoristas desalmados e a vida. Ao chegar, sua casinha foi logo derrubada por ordem do Grande Cachorrão e a Grande Cadela Branca, depois de o Pequeno Cão Cinzento cumprir seu papel de guardião da casa.

As pulgas incomodam, a sarna de um cão causa coceiras em nossa alma e o agora Grande Cão Cinzento, sabia que jamais teria paz pelas ruas, embora imaginasse que eram elas seu destino. Encontrou então o Grande Cão Cinzento, velho e sem dentes, alguns Amigos Cães que, sem mais nem porque repartiram o pouco que tinham, seja esse pouco o quanto for,com o Grande Cão Cinzento. E agora ele, o Agradecido Cão Cinzento agradece a esses sinceros amigos, certo de que a eles não precisará abanar o rabo. Nem comer restos, nem lamber o rosto e receber uma mordida. Obrigado amigos e … Enquanto os cães passam as caravanas ladram… E au, au! … A todos!

5/21/2007

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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