Crônica – Eu? Contemplo as Ondas…

Os jovens acham que sou “velho demais para o Rock’n’Roll”, os velhos também. Os ricos acham que não tenho classe o suficiente para pertencer ao seu grupo, os pobres também. Os drogados acham que eu sou lúcido demais para ser um deles, os lúcidos também. Os intelectuais acham que eu sou idiota demais para pertencer ao grupo deles e os idiotas acham o mesmo. Artistas acham que sou incompleto, técnicos que sou sentimental demais, enquanto os poetas estão certos que é errada minha poesia e os errados que minha poesia é certa demais. Já os surdos acham que falo demais e os cegos que sou míope. Minha família concorda com minha falta de objetivos e os seres objetivos bem sucedidos afirmam sem pudor que falta família em meus objetivos. Meus filhos me querem na praça jogando dominó de pijama com outros velhos, que me mandam cortar o cabelo. Meus detratores não aceitam minha ingenuidade e os ingênuos berram que a prepotência é minha marca. Mas os hipócritas, esses não aceitam de forma alguma minha sinceridade, embalados pelo coro dos sinceros que não aceitam minha verdade. Pais e professores acham que crianças devem estar longe de minhas idéias, enquanto essas, inocentes, também acreditam. Os médicos acham que sou doente, os psicólogos que sou louco, enquanto loucos e doentes não acham nada. Religiosos acreditam que sou descrente e os ateus discutem se eu sou crente. Deus não pensa nada a meu respeito e eu também não penso nada a respeito dele, portanto estamos empatados… Não, eu sou melhor que ele, porque provo minha existência, enquanto sua inexistência não pode ser provada.

E quanto a mim, o que penso de mim? O que penso que eu sou? Eu não penso… Eu sou…

Eu? Contemplo as Ondas…

Osho disse em resumo: contemple o oceano e não as ondas. E eu, que não sou guru, que não sou profeta, apenas poeta, que não me espanto com deuses, nem adoro nenhum mestre. E eu, que faço do meu trabalho uma declaração de amor. E eu, que não contemplo e nem sou subjugado pelas crendices e pelas mesmices e que não aceito o dito pelo não dito… Eu, e apenas por mim e de dentro de mim afirmo: eu contemplo as ondas, pois são elas que formam o oceano.

03/09/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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