Crônica – Guns And Softwares

Uma matéria publicada em uma revista de informática de circulação nacional trazia a frase: “Não podemos culpar o fabricante da arma pelo assassinato” para justificar o uso de um determinado software possivelmente com finalidade de pirataria. A frase a mim é de uma infelicidade dupla pelos dois pontos que a abrangem:

1- Um programa de computador pode ou não ser criado com a finalidade criminosa e quando esta não é clara pode realmente dar ensejo a classificação de “mau uso”.

2- Uma arma é criada com a finalidade criminosa – não importa o lado da lei que esteja aquele que a usa  – está clara e não pode dar ensejo de “mau uso”.

A comparação ou seja, a metáfora é no mínimo de uma infelicidade, digamos criminosa pois assume claramente a postura de culpa e desculpa. Uma coisa que parece título de um daqueles filmes italianos de faroeste. “quem matou foi Deus, eu só puxei o gatilho” .

Lógico que ninguém poderá culpar o fabricante de um garfo ou de pedaço de madeira usados em crime, pois afinal não foram criados com a intenção de matar.

Mas o mesmo não acontece com o fabricante de uma arma, pois a mesma foi construída com um único e exclusivo propósito: matar.

Em termos jurídicos existe o chamado “crime doloso” em que diferente do “culposo”, há a clara intenção de matar, existe um planejamento, uma premeditação do crime. É diferente do fabricante de armas? Na fabricação de armas existe o planejamento, a premeditação, não de um crime, mas a maneira mais eficaz de se cometer o crimes perfeitos (isto é, sem nenhum dano ao criminoso). Não há um crime mas a clara intenção de cometer milhares e milhões deles.

Retornando ao mote inicial, podemos sim culpar um fabricante de armas pelos crimes que eles cometem, da mesma forma que um programador que cria um software para roubar. O interessante é que fabricantes de bebidas e cigarros estão sendo condenados, mas nunca se escutou algo como processar um fabricante de armas por um assassinato. A eterna e absoluta hipocrisia.

6/15/2000

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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