Crônica – Há Um Muro Entre as Calçadas

Em um futuro não muito distante – aliás, creio que bem próximo, “esquerdistas” (se preferirem “progressistas”) andarão em um lado da calçada, e  “direitistas”, (os tais “conservadores”) pelo outro. Existirão empresas, lojas, negócios dedicados apenas a uma ou outra “espécie” (ou seria “raça”?) de seres. Ninguém poderá cruzar a rua em direção ao outro lado sob o risco de ser violentado.

Na verdade, existirão bairros inteiros, e até cidades, ou mesmo países, onde esses limites serão claros, e mesmo que seja da mesma família, etnia, crença religiosa, etc.,  serão segregados, apartados, hostilizados. Mortos até. Cada lado se arvorará como dono dos fatos e da verdade, mas sempre baseados em suas próprias interpretações deles. Cada um com sua narrativa, como se fosse ela a única. Em nome de suas próprias virtudes, muitos massacres ocorrerão.

Penso que esse filme já foi feito e assistido, e ele era em preto e branco – entendam a clara analogia – e sempre pensamos que jamais seria refeito por ser um roteiro defasado historicamente, mas os interesses da “indústria” se sobrepõem aos interesses humanos, e o poder se sobrepõe à justiça.

Esta história, eu poderia desenhar de forma bem mais abrangente e detalhada, demonstrando os tipos humanos, pós humanos que a compõem, mas nem creio ser necessária, já que cada um dos leitores já consegue vislumbrar quais serão.

E ninguém poderá lembrar como isso começou, lá no distante início da segunda década do século vinte e um e foi exposto claramente depois que um microscópico vírus, como milhões de outros, foi usado como desculpa para colocar quase toda a humanidade debaixo das suas botas.

Portanto, querido leitor e querida leitora, que me lê no futuro (e o futuro é agora, com ou sem metáfora) escolha o seu lado da calçada e tenha uma boa viagem. Não, não tem como não escolher um lado, muito menos cruzar a rua e dar um beijo em seu filho ou mãe, ou pai ou filha, que decidiu andar pelo outro: estarão tão preocupados em suas certezas de estarem no lado certo que sequer o reconhecerão. E ainda existe o risco de ser denunciado, preso, torturado.

Não existirá a Calçada do Bem, nem a Calçada do Mal, apenas Calçada da Direita, Calçada da Esquerda, mesmo que fiquem do lado direito ou esquerdo, dependendo da referência, que não será um ponto geográfico, mas ideológico.

As calçadas de um lado terão nomes de heróis da história, pessoas que lutaram por sua terra, por seu país, ou simplesmente por si, fazendo com que seus exemplos fossem seguidos. As do outro, terão nomes de vítimas, que segundo a concepção, podem ser de qualquer um que tenha morrido pelas mãos de alguém que julgam estar do outro lado, mesmo que a própria definição disso nem tivesse ainda sido inventada quando do acontecimento.

De um lado da calçada caminharão aqueles que dizem fazer parte de um grupo que quer o bem de todos, mas entendendo que “todos” não se refere mesmo a todos, mas apenas aos que estão do seu lado. E considerarão como “ninguém”, como “nada”, os que estão do outro, afinal só existirá uma espécie de ser humano, o restante não passará de escória, que precisa ser extinta.

Sim, existirão campos de extermínio, onde experiências genéticas serão feitas com espécimes que serão capturados na calada da noite primeiro, e às vistas de todos depois, do outro lado da calçada. Haverá julgamentos sumários de filhos contra pais que transitam, segundo eles, pela calçada errada. Haverá a fome, haverá dor e muita tristeza, e decerto alguém irá se lembrar dos muitos seres humanos da antiguidade que tentaram mostrar que pelas calçadas deveriam transitar todos, com suas diferenças humanas. Indivíduos humanos com suas diferenças, que os levaram adiante por muitos séculos.

O muro invisível (ou quem sabe construirão muros de concreto) que dividirá as ruas, será instransponível, tão alto que não se poderá ver o céu. Será tão extenso que dará voltas ao redor do planeta, e tão duro que jamais poderá ser derrubado. O material do qual esse muro será erguido tem um nome: Ignorância!

E não adianta espernear, relutar, fingir que não está caminhando por uma ou outra calçada pois os donos do mundo não permitem. Esses seres que habitam os prédios mais altos, que ficam, esses sim, numa rua onde não há calçadas divididas, pois apenas conseguem exercer seu domínio unindo-se numa única calçada.

É claro que um lado da calçada será mais cheio de pessoas que o outro, mas ele será mais estreito e sujo que o outro. É claro que ali as pessoas serão apenas uma massa disforme de carne assexuada. É claro que nesse, as pessoas gritarão mais alto, falarão muito mais de si e, mas dirão que falam em nome de todos, e ninguém será responsabilizado, a não ser os do outro lado, mesmo que nunca tenham posto os pés ali. Enquanto do outro, haverão homens e mulheres, cada um sendo responsável por si próprio e pelos seus atos, que falarão e pensarão por si.

Há duas calçadas à sua frente, de uma mesma rua, que no final leva apenas ao fim da humanidade da forma que a conhecemos, e que muitos perderam a vida por lutar. Heróis, que certamente se vivessem seriam obrigados a escolher o lado da calçada por onde andariam.

A trajetória humana nunca foi tão comprometida. Criamos o que nos devora! Vire a próxima esquina, quem sabe ali esteja a saída…

14/01/2021

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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