Crônica – [Hoje acordei me sentindo estranho, esquisito]

Hoje acordei me sentindo estranho, esquisito. Há muito tempo não me sentia assim. Era diferente de antes, era diferente de todos, e até achei que fosse morrer. Escrevi umas coisas eróticas tentando não pensar naquilo que sentia e que me incomodava. O que era? Procurei na Internet, no Facebook, no Twitter e no Instagram… Até perguntei ao Google, mas não tinha resposta. Parece que ninguém sentia aquilo, e isso quer dizer, pensei, que deve ser algo muito grave, talvez fatal. Quem sabe quanto tempo ainda tenho de vida? Será que passo de hoje? Escrevi na busca do Google os sintomas, mas os 123456789 resultados não deram-me um diagnóstico. O que era aquilo? Fiquei muito preocupado, claro. O tempo foi passando e aquelas sensações não me deixavam. Postei no Facebook e todos estranharam, quase nem houveram curtidas, nem compartilhamentos, e isso significa que até a rede de Zuckerberg ignora o que estou sentindo. As curtidas por falarem de peste chinesa, mal ou bem do presidente, do ex e do futuro, eram recheadas de comentários, mas a minha ficou lá. Estou fudido, pensei, meu problema é muito grave. Fui bloqueado, porque aquilo que eu relatava não constava da cartilha deles, ou era considerado contrário às diretrizes da comunidade. Sei lá, comecei a me sentir cada vez mais preocupado com o que sentia, que parecia agora ser algo diferente de tudo, e o que é pior, muito diferente do que todos contavam, sobre quantos conhecidos estão doentes, sobre quantos são bolsonaristas ou petistas ou negacionistas ou onanistas. Todas as respostas haviam sobre o que todos sentiam, mas ao que eu sentia, nada. Nem uma palavra. Hoje acordei me sentindo estranho, muito estranho. Acabei me conformando com o que sentia. Afinal, é deveras estranho nestes dias, a gente acordar se sentindo bem com a vida que tem, sem querer fugir da morte e sem desejar que o outro morra por não pensar igual. É… Acordei me sentindo muito estranho… Talvez o diagnóstico seja: “Feliz”… Será que tem cura???

13/06/2021

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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