Crônica – Impressões Digitais Sobre a Ditadura

Quando a Ditadura Militar foi imposta no Brasil em março de 64 eu tinha apenas 6 anos, somente no ano seguinte entraria no “Grupo Escolar”.

Claro que em uma criança aquilo não causou nenhum impacto inicial, mas o fato é que iniciei-me nas chamadas “primeiras letras”, debaixo de um sistema educacional erguido para alienar, castrar, inibir e subjugar. Professores eram uma espécie de representantes civis bem treinados, dignos auxiliares. Era comum alunos serem espancados em classe. Eu mesmo cansei de apanhar de uma professora de nome Abigail. Reguadas e croques na cabeça eram as torturas mais comuns.

O tempo corria solto. Apenas ele, pois os estudantes, classe que se rebelou contra o Regime, ao correrem eram espancados pelo Batalhão de Choque a serviço dos Militares. Protestos, engajamento, palavras de ordem, busca de coisas simples.

Na nossa Pátria-patrão, os EUA, jovens sem coisas mais urgentes e necessárias para lutar o faziam em nome da Paz e o Amor, com os dedos em V, aqui na Pátria-escrava, os jovens lutavam por uma liberdade cujo conceito mal entendiam, com os dedos quebrados em paus-de-arara.

O único movimento por aqui era dos militares que exigiam: “Brasil: Ame ou Deixe-o!”, no velho estilo, “A porta da rua é a serventia da casa.”, com um presidente ouvindo futebol em um rádio de pilha.

Os programas de TV exibiam um “Certificado de Censura”, os jornais possuíam em suas redações censores em escala hierárquica acima até dos proprietários; revistas “eróticas” podiam mostrar apenas uma das bandas da bunda e um dos seios, mesmo assim com os mamilos raspados. As porno-chanchadas sofriam do mesmo arbítrio e da falta de criatividade cerceada pela mesma censura que proibia peças de teatro, letras de música e qualquer expressão artística. Todos eram vítimas constantes de uma tesoura tão inculta quanto ignorante a ponto de atos como proibir o ingênuo livro “A Capital” de Aluísio Azevedo, por tratar-se do homônimo feminino de “A Capital”.

Era a época do “Milagre Brasileiro”, centenas e centenas de escândalos encobertos: o Regime não tinha satisfações a dar e aqueles que ousassem exigi-las tinham os ossos quebrados, sem quebrar o protocolo. Muitos ídolos surgiram nessa época: a maioria está morto ou rico. Alguns perderam seus miolos na porrada, outros os perderam por decisão própria.

Cresci, fui adolescente e me tornei adulto durante este período e meus ídolos eram presos, torturados, exilados, mortos. Escutar um disco era um sacrifício, ler um livro uma aventura, assistir a uma peça de teatro um risco. O que existia era o órgão oficial do Governo Militar, a Rede Globo – que hoje enquanto escrevo completa 35 anos, que coincidência! – e suas alienantes “novelas com um jornal no meio”.

A gente passava as noite escrevendo poesias, jornais e manifestos, datilografava em velhas máquinas de escrever os “stencils” e depois girava a manivela do mimeógrafo á álcool como uma metralhadora prestes a estourar os flancos do sistema. Mas o sistema não lia e nossos textos passavam de mão em mão e voltavam as nossas mãos. (Escrevíamos para nós mesmos.)

Nada mudou, embora muitos de nós tenham mudado, de local, de alma, de país, de planeta. Tenho apenas impressões digitais (impressões em meio digital), pois as verdadeiras, as dos meus dedos, foram arrancadas, queimadas…

E o que posso dizer, ao retirar essas lembranças do meu Baú, senão que não se pode deixar de contar às gerações que não viveram essa época, o que foi a Ditadura Militar que arrasou esse país.

Mas você está me ouvindo? Abaixa esse pagode, menino!!!!!

4/16/2000

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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