Crônica – Insônia

O que faço acordado às cinco da manhã, perguntou minha mulher. Faço escritos, faço escritos, disse eu, constrangido por estar acordado numa ainda madrugada de domingo, enquanto a maioria das pessoas dormem o sono reparador das mágoas e cansaços da semana, outros chegam da balada bêbados e mal amados e outros ainda acordam para ir a igreja distante em busca de algo tão perto. Mas é domingo, disse ela, com cara de sono, já que foi acordada pelo matraquear do meu teclado. A poesia não descansa, e não tem fim de semana; disse eu com cara de azedo. Não tem descanso semanal remunerado, não tem férias nem décimo terceiro salário; completei com começo de irritação. Minhas gatas ronronam e se acomodam no meu colo e minha mulher desiste e retorna para a cama quente enquanto eu ainda espero pela inspiração que talvez chegue junto com os primeiros raios da manhã. O Sol sairá hoje, ainda penso enquanto olho o cursor solitário e idiota piscando na tela do computador e bato nas teclas esperando que o som acorde minha inspiração. Estou perdendo tempo, penso. Mas o tempo é a única coisa que um poeta tem a perder, porque é a única coisa que lhe pertence.”Quem não tem nada, nada tem a perder”, disse o poeta na canção. E eu perdi a canção, perdi o tempo e perdi a hora. Estou atrasado. Que faço acordado às cinco e meia da manhã, pergunta o Sol esfregando os olhos, enquanto a ultima estrela solitária ainda pisca. O Sol é o único que não perde o tempo nem perde a hora. E agora eu lhe respondo que esperava sua chegada, desejo-lhe um bom dia – talvez devesse desejar boa noite – e vou dormir. A poesia? Ah, bem, a poesia pode esperar até que chegue outra noite. Ou dia.

02/12/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

5 1 Vote
Article Rating
Assinar
Notificação de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários