Crônica – Leilão de Almas – O Ensaio

Um grande leilão de almas aconteceu naquele imenso palácio de mármore importado, colunas romanas e um arco na entrada, com um átrio e um pátio maiores que qualquer Teatro Municipal. As pessoas foram chegando com seus ternos de linho branco, mulheres com enormes e decotados vestidos negros e longos, peles nos ombros, tiaras e colares de brilhantes nas cabeças e pescoços. Computadores, celulares e outras bugigangas eletrônicas, acumulados e confusos.

Então entra o leiloeiro oficial com seu terno branco de uma brancura impar, acompanhado de um eunuco negro de uma negrice também sem par. O silêncio é pedido e feito. O martelo repousa sobre o balcão trajado de cristal que brilha sobre os refletores. O leiloeiro sua abundantemente debaixo do terno branco, mas o eunuco negro o abana com penas brancas de algum pássaro abatido e hora ou outra enxuga com um lenço bordado embebido em alfazema o suor fedorento de sua testa.

O leiloeiro finalmente anuncia finalmente o objeto daquele leilão, que são nada mais nada menos que almas humanas, e a platéia rompe o antigo silêncio pedido e feito e urra de forma selvagem. Alguns homens têm uma repentina e rápida ereção e muitas das mulheres sentem molhadas as suas calcinhas de renda. Quase uma orgia e ninguém ainda tocou em ninguém.

Naquela platéia, em meio aquela multidão que quase chega ao orgasmo apenas com a menção do seu maior objeto de desejo, um par de ilustres conhecidos embora queiram passar desapercebidos. Eles não urram, não têm ereção e nem molharam peças íntimas. Ambos trajados com roupas muito idênticas, solenes e sóbrias; tão idênticas que pareciam ter sido compradas no mesmo lugar. Um atende pelo nome de Lúcifer outro por Jeová, embora todos ali presentes saibam que ambos atendem por outros nomes e codinomes, como também há quem diga que eles constantemente usam um o nome do outro a fim de confundir. Mas então chamemo-los por seus nomes mais comuns, de Diabo e Deus.

Começa o leilão e a primeira alma leiloada será a minha. O leiloeiro recita a descrição do produto, exagerando nas qualidades e estabelece o lance mínimo de 1 dinheiro. Mas, nenhum grito de lance, nenhuma mão erguida. O leiloeiro repete a descrição da alma sendo leiloada, incita a platéia, mas ninguém, ninguém nem mesmo e principalmente aquele par de ilustres conhecidos, conhecidos como Diabo e Deus, tem qualquer interesse naquela alma que está sendo leiloada. Nenhum deles ergueu qualquer de seus dedos cheios de anéis. Nada, nenhum lance sequer. E olha que o leiloeiro ainda abaixou o lance mínimo para Nenhum dinheiro. E o leiloeiro dá por encerrado o leilão daquela alma.

Outras almas são colocadas em leilão. Todas as espécies e cores delas e todas elas são arrematadas por aquele par de ilustres conhecidos conhecidos por Deus e Diabo, por preços maiores, preços justos, preços caros… O martelo é batido e cada alma é entregue hora a um, hora a outro daqueles ilustres conhecidos, hora por Deus, hora por Diabo.

O leilão termina e minha alma, a única que não foi arrematada naquele leilão de almas, é atirada em um porão fedorento e embolorado, onde permanecerá apodrecendo pelo resto da eternidade, porque nenhum daqueles ilustres conhecidos, conhecidos por Deus ou por Diabo, a arrematou. Pobre minha alma sem proprietário.

CONCLUSÃO
Minha alma, abandonada e não leiloada porque nenhum daqueles senhores por ela se interessou, permanece ali, naquele porão molhado e mofado, a espera de alguém que lhe arremate. Uma alma abandonada ao próprio destino, carregando bolas de ferro presas às pernas, acorrentada a um corpo que não a deseja e que ela também não ama; uma alma sem proprietário, sem porquês nem sim nem não. Uma alma carente de propriedade, que caminha sem destino por caminhos que não conhece; uma alma sem paixão, sem desejo, sem coração. Enfim, uma alma sem alma.

3/3/2001

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

DEPOIMENTO

Barata é um batalhador da cena underground, um guerreiro, sempre lutando contra expectativas, mas se favorecendo de uma inteligencia interminavel !!! Parabens! - (Facebook - 2011)
Sandro Cajé
São Paulo - SP
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