Crônica – Manifesto dos Desbaratados

“Desbaratada quadrilha de traficantes de almas humanos em Brasília”. Segundo o Aurélio, “Desbaratar” tem sentido de: “Esbanjar, malbaratar, estragar, arruinar, destruir, vencer, derrotar, destroçar.” Mas, “Desbaratar” pode significar em nosso mundo cheio de baratas adoradoras e devoradoras de palavras, papel, emoções humanas e prazeres mundanos “acabar com(o) baratas”.

Mas em qualquer desses sentidos, nem estritos nem laicos do termo, aliados á uma retórica estética que representa o fato de que neste país de idiotas, como o resto do mundo, mas muito maior nesta Terra comandada por ignorantes no mau sentido e obedecida por ignorantes no mau sentido também, porque ninguém é inocente quando se trata de opção política e principalmente histórica.

Esse sistema nojento e pestilento transformou a nós, que fazemos da arte a vida e da vida a arte, em baratas. Baratas tontas e perdidas, fazendo com que nos sintamos sempre mais e mais como parias de uma sociedade que nos odeia e pior que isso nos ignora.

Nós, poetas e escritores, representamos a verdadeira arte, a verdadeira esperança e o verdadeiro grito. Longe das benesses da Grande Mídia que apenas considera artistas aqueles que podem manipular e ganhar muito dinheiro em cima, como cantores, músicos, desenhistas. Nossa arte vai além. O que Cazuza e Renato Russo pensavam e colocavam em músicas é idolatrado, adorado. Mas muitos de nós colocam idéias muito melhores e mais claras em forma de poesias ou crônicas e ninguém releva.

Em alguns países é comum leituras públicas de livros que ainda nem saíram, leitura, gravação e lançamento de obras de poetas em CDs com a afluência de ótimos públicos. Aqui, nosso desbaratamento é total. Fomos desbaratados feito quadrilhas de delinquentes, somos colocados á margem, aprisionados em celas e muitos ainda as transformam em torres de marfim. Mas estamos á margem, senhoras e senhores! Fomos desbaratados por uma Polícia sem farda, sem armas e sem medo de simplesmente nos jogarem em guetos fechados onde ficamos mostrando nossa arte uns aos outros. Confinados e conformados, aceitamos a situação imposta.

Até quando, senhoras e senhores, ficaremos trancados em nossas casas escrevendo textos e mais textos e depois publicando na internet para que outros na outra extremidade da linha leiam e descartem? Lugar de literatura não é na tela de computadores, literatura é para a rua e para os sentidos das pessoas. Literatura é para o papel e para o grito. Literatura não feita de “Bits” mas de sentimentos.

Desbaratados, estamos nos isolando de um mundo que é nosso alimento intelectual e emocional. Matéria prima de nossa arte. Dentro de sistemas de computadores e sites de relacionamento não está nossa verdade. A verdade está nas ruas, nos teatros, nos cafés, nos botecos e nas praças públicas.

“Conheça a verdade e a verdade vos libertará”. É a frase bíblica que se refere, por dogma, á uma verdade religiosa. Mas podemos encarar tal frase no sentido amplo, geral e irrestrito. Conheça a verdade por trás dos dogmas religiosos e essa verdade o libertará de deuses, santos e, principalmente da ditadura das religiões. Em nosso caso, conheça a verdade das ruas e essa verdade o libertará da ditadura do seu egoísmo pseudo intelectual.

Somos culpados de nossa ruína, de nossa decadência. Ficamos igual peixes que nadam sem coragem de colocar a cabeça para fora e tomar uma cacetada. Somos culpados não abordar as pessoas nas ruas, incomodando-as com nossa poesia, nossos textos. Somos culpados por não dar oportunidade ás pessoas de conhecer nossas alegrias, nossas angústias, nossas dores. Porque? Porque na internete ninguém aplaudirá, mas em compensação ninguém irá nos ver chorar e rir, tremer e saber dos sentimentos mais puros estampados em nossos olhos. Ali também não corremos riscos de sermos contestados e apupados, portanto encerrando dentro de nós mesmos verdades que não ousamos expor a contestação.

Nas telas de computadores não existem poemas, existem palavras amontoadas. Não existe poesia verdadeira estampada em telas de computadores.

O que estamos esperando, queridos colegas? Esperando a madeira da cruz de Cristo apodrecer? Os pregos enferrujarem e caírem? Esperamos por milagres sem sequer acreditar neles? O que estamos esperando, senhoras e senhores? Que tal começar arrancando os pregos podres que ainda o prendem á cruz do egoísmo e partir para a guerra pela dignidade? A dignidade da arte, a dignidade do sentimento. Sem sentimento não há arte verdadeira e não há verdade em telas de computadores.

Nos ensinaram a ter fé em Deus, mas apenas quando essa fé já não nos contentava foi que aprendemos que temos que ter fé verdadeira em nós mesmos e em nossos iguais. Mas sempre andamos apenas até a metade do caminho. Não enxergamos e descremos das pessoas ao nosso lado e depositamos nossa fé num ser invisível e no mínimo distante de nós.

Até quando assistiremos padres e pastores enganarem as pessoas com suas promessas falsas sobre uma vida eterna, de paraíso, de fuga do inferno, quando sabemos que a eternidade está na arte e que o paraíso e o inferno são metáforas para o prazer e a dor, companheiras inseparáveis e amantes insaciáveis de nossa arte. Quanto tempo demandará até desbaratarmos esses hipócritas e tomarmos seu altar, onde a celebração da arte mostrará a verdade inominável aos crentes sobre o poder da humanidade de traçar seu próprio caminho que passa longe, muito longe, do Céu ou do Inferno?

Até quando acharemos que nossa arte sobreviverá ao tempo? Até quando teremos preguiça de sair de casa e encontrar amigos e não amigos, preferindo o conforto do teclado do computador ao desconforto de estar de pé lendo nossas poesias? Até quando nos esconderemos do mundo e principalmente de nós mesmos atrás de uma tela de computador. Até quando buscaremos a conexão por transmissão de dados via internete e deixaremos de escanteio a conexão por transmissão de sentimentos via oral, auditiva, sentimental?

Até quando ficaremos sentados sendo desbaratados e aniquilados e aceitaremos isso como um destino de mártires que nunca pretendemos ser?

O que somos nós? Baratas?”

6/25/2007

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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