Crônica – Merda no Ventilador

Muita gente me critica pelo fato de eu estar sempre jogando merda no ventilador, mas a merda que eu jogo é a deles, por isso que reclamam tanto e se sentem tão ofendidos. Em uma entrevista ao poeta e zineiro Diego El Khouri, o poeta Glauco Mattoso afirma: “Eu diria que, sendo o Brasil um país bem vira-lata, quem quiser assumir o rotulo de ‘sujo’ tem mesmo que estar um pouco acima da media… Mas ser um poeta sujo não é apenas chafurdar na merda: é saber jogá-la no ventilador, saber fazer dela boas tortas para atirar na cara dos politicamente corretos.”. Concordo completamente com ele, mas preciso acrescentar neste contexto que muita gente liga o ventilador, apanha a merda e a espalha, mas não basta jogar a merda de volta na caras das pessoas a própria merda que eles produzem, é preciso fazê-las sentir que aquela merda toda é deles mesmos, não de quem a colocou no ventilador. Seria quase que o mesmo efeito da tortura de Alex, personagem de Laranja Mecânica, causar o asco pelo próprio feito. No livro de Burgess e no filme isso não dá resultado, anulando o que chamam de “livre arbítrio”, tornando o ser incapaz também de gerar o bem. E na tortura pelos métodos de “merda no ventilador” funcionaria? Os torturados se sentiriam enojados pela própria merda a ponto de não mais produzi-la? O que a sociedade produz é apenas merda, no final das contas. Tudo vira merda! Tudo. Até mesmo o pensamento dos intelectuais, a musica, a poesia, tudo. Tudo acaba se transformando em merda pura. E artistas, que não são aqueles que como os poderosos se locupletam com a merda produzida por essa sociedade, como poucos que ainda existem, como é o caso de Glauco Mattoso e outros, sendo que nesses outros também incluo sinceramente a mim mesmo, precisam pegar essa merda toda e jogar no ventilador com toda a disposição. Existimos num país de fracos, doentes e incultos. Muita merda é o que existe. Então precisamos de mais ventiladores.

14/11/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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