Crônica – Minha Pátria é Língua Morta, Minha Língua é Pátria Viva

Minha pátria não é minha língua, minha língua é que é minha pátria. E falo em língua não como pátria, mas como pária. Minha pátria é língua morta e viva a minha língua. Língua Pátria, pátria mãe gentil… Pátria armada dos gentios. E falo isso, na primeira Pessoa, não na de Fernando, mas na minha. Minha língua é o que eu falo e minha pátria é meu falo. E falo do meu falo como se fala da sua falência. Fala falha, língua falha, pátria falha. E danem-se as regras, de menstruação, de um idioma, quero a língua não a pátria, que se dane a bandeira, que se danem os limites geográficos, falo com quem me entende, sem tradução. Nada nem ninguém traduzem a minha língua. Dou com língua nos dentes, sou indiscreto, nada secreto e pago a língua, que me chamem de língua de trapo, aos trapos a língua dos tolos. E não mordo a língua por desejar que se danem. E o que me importa Caetano e suas caetanias hereditárias, que me importam os joões, nem os gilbertos nem os gis, nem vãos nem os vis. E se “a língua é espelho de uma nação”, a minha nação é meu espelho… Quebrado. Do que reclamam de minha língua? E clama a minha língua? À míngua minha língua. A íngua e a metástase da alma. O câncer espalhado pela garganta do mundo. Minha pátria é minha fala, minha língua. Ortografia é um ser vivo, mas eu não vivo nem morro por ela. Nem sem ela. Que morra a ortografia, mas que viva a poesia. Reformemos a ortografia como se reforma um soldado: aposentadoria. Que morra a “última Flor do Lácio, inculta e bela”, mas que viva a língua. Que morra bela, mas não inculta. Que morra “desconhecida e obscura” antes que viva puta. Tenho a língua solta, a língua afiada, conversa fiada! Que morra a pátria, que viva a língua! Minha pátria é língua morta! Minha língua é pátria viva!

17/11/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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