Crônica – Minha Vizinha Morreu!

Minha vizinha morreu! Senhora forte, doce, e dona de uma disposição ao trabalho como pouco se vê. Nordestina, o marido a abandonou por uma amante mais generosa, sexualmente falando. Ela criou os filhos praticamente só. Nunca aceitou ajuda de ninguém, sequer do governo. Vivia cantarolando a musica de Luiz Gonzaga: “Ai, dotô uma esmola a um hómi qui é são, ou lhe mata de vergonha, ou vicia o cidadão”. Ela morreu. Não fui ao velório. Muita gente foi. Era desbocada, sincera e rude com quem achava que devia ser, segundo seus critérios. Valia-se de sua personalidade. E mandava tomar no cu quem a chamasse de vitima do marido, da sociedade, e até das circunstâncias. Dizia que tinha o que tinha porque merecia. De bom e de ruim, era isso o que ela dizia. Os filhos seguiram seus caminhos. Teve vários. Alguns se tornaram pessoas. Outros apenas filhos. E outros não se tornaram nada. Morreram. Mas, minha vizinha morreu. Eu não fui ao velório, não fui no enterro e sequer derramei uma lágrima. Sabia da sua história, mas ela não sabia da minha. Creio que não. Minha vizinha morreu, mas não fui eu. Muita gente morreu. Morre agora, e irá morrer dentro de um minuto, um dia… Minha vizinha morreu. Num hospital publico. Sozinha. Não era ninguém importante. Não tinha jornalistas na porta. Quem se importa, se minha vizinha morreu? E no dia em que ela morreu, outras vizinhas de outras vizinhanças também morreram. E outros vizinhos de outros vizinhos. Morrem vizinhos todos os dias. A minha morreu. Não eu! Minha vizinha morreu. Eu não. Eu não chorei por ela, e ela possivelmente não choraria por mim. Conhecíamo-nos apenas porque um dia mandamos um ao outro tomar no cu, numa discussão corriqueira. Nunca fomos amigos. Eu não tinha seu Whatsapp, nem como amiga no Facebook. Minha vizinha morreu, eu sei. Foda-se! E se fosse eu, ela diria a mesma coisa. Boa gente, essa minha vizinha.

03/02/2017

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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