Crônica – O Amante Perfeito

Gosto de sentir o prazer físico do contato com um livro. O início do namoro ao entrar em uma livraria, como se fosse um amante observando de longe sua bela amada passeando em uma praça em tarde de sol. Chegar perto, trocando o receio inicial pelo interesse e pelo desejo. Tocar, pegar nas mãos passando suavemente os dedos pelo rosto e depois romper lentamente a timidez inicial e ir além.  Acariciar cada página, cada folha de papel que forma a pele do livro e sentir o perfume da impressão…. E ah, a impressão! Não é a toa que tem tal nome, impressão digital, marca, cicatriz… E ai apanhar pelas mãos essa nova paixão, carregá-la para casa e ama-la como se a primeira amante fosse. E a única. Sentar confortavelmente, abrir todos os sentidos e escutar todas as suas histórias, sentimentos e paixões.

Todos os livros são histórias da vida de alguém e qualquer alguém é um livro de histórias. Pouco importa o gênero, pouco importa a altura, a cor, a idade e a nacionalidade, todos os livros são amantes especiais, cada um deles, especial e único. Feito as pessoas.  E tal e qual fazemos com as pessoas, alguns livros descartamos ao conhecer a história, outros amamos por uma vida inteira. Alguns nem chegamos a ler inteiro por termos odiado o inicio. Outros, nem chegamos a ler ou mesmo a conhecer por falta de oportunidade ou interesse. E existem também aqueles que odiamos por serem mal escritos, como às vezes também as histórias das pessoas. Outros odiamos por outros motivos totalmente inexplicáveis, como de resto às vezes também odiamos as pessoas. E também as amamos… Inexplicavelmente.

E os livros, esses seres em principio sem vida própria, mas que a adquirem ao tomar a alma de seu autor e por vezes também a do leitor. Esses livros, que tecnicamente são um amontoado orgânico morto, feito seres humanos. Esses livros que ao serem conhecidos na sua integra, fatalmente mudam existências inteiras… E esses livros, que embora parecidos são únicos,  serão apreciados, odiados e amados de formas diferentes. Feito as pessoas.

Adoro pegar um livro, abri-lo, lê-lo, conhecê-lo. Andar com ele sob o braço é magnífico, pois esta é a forma de abraçarmos um livro,  dizer que gostamos de sua companhia e que somos próximos e amantes. Pelos ônibus, metrôs e praças tenho orgulho de apresentar a todos minha mais recente paixão, o livro que estou lendo no momento. Sinto-me orgulhoso quando alguém cobiça e deseja, pois tenho uma paixão que me causa orgulho, prazer e me faz crescer como ser humano. Tenho um amor que eleva minha auto-estima e que traz até mim o que de mais precioso um ser humano pode desejar: o conhecimento. Amante perfeito!

10/09/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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