Crônica – O Cérebroscópio

Dia desses li um texto de autoria de João de Fernandes Teixeira, publicado na revista “Filosofia” (Editora Escala). No texto, o autor discorre sobre a questão da privacidade dos estados mentais, e cita como referencia o filósofo Daniel Dennett, particularmente o artigo publicado no livro “Brainstorms” de 1981, onde o autor critica severamente àqueles que pregam que a Neurociência poderia decifrar o “código mental” através da criação de uma máquina que ele denomina “Cérebroscópio”. “Uma máquina fantasmagórica, pois além de ler os pensamentos dos outros também permitiria que novos pensamentos fossem inseridos na cabeça das pessoas.” Segundo Dennett, “Isso seria a consumação do projeto totalitário das sociedades contemporâneas nas quais, se já perdemos o direito de falar, agora perderíamos o último que nos resta: o de pensar.” E arremata: “Felizmente até hoje essa máquina não foi construída.”.

A literatura, principalmente aquela dedicada à distopias, sempre mostrou esse desejo de controle das massas através do controle de seus atos e principalmente pensamentos. Assim era na sociedade criada por Huxley em “Admirável Mundo Novo” e naquela dominada pelo “Big Brother”, no “1984” de Orwell, onde a criação da “Novilíngua” era baseada na redução do numero de palavras com o intuito de diminuir a capacidade de raciocínio. Enfim, o desejo de criação dessa máquina, o “Cérebroscópio”, de alguma forma está presente na imaginação desde o principio da humanidade como a conhecemos. Quem de nós nunca pensou em ter tal máquina que pudesse conhecer e controlar os pensamentos mais íntimos dos outros?

Mas até a chegada da era da Informática, e particularmente da Internet, isto sempre foi encarado como um grande tema para imaginativos escritores de ficção-cientifica. Muitos autores criaram histórias baseadas no controle das mentes das pessoas de diversas formas. Desde o fim da primeira metade do século XX, começaram a imaginar “computadores” e sistemas com tal função, mesmo que os termos usados não fossem esses. Murray Leinster em 1946 escreveu um conto chamado “Uma Lógica Chamada Joe”, onde a história girava em torno de um funcionário de manutenção de “lógicas”, como o autor se refere aos computadores, que leva para casa Joe, um computador que aos poucos vai armazenando informações sobre as pessoas e causa uma confusão imensa. Em “Farenheit 451”, Ray Bradbury, além da questão da proibição absoluta de livros, conta que as pessoas têm telas enormes ocupando espaços nobres das casas, interagindo com amigos e familiares “virtuais”.

Saindo do terreno da Filosofia e da Literatura e olhando de lado – ou melhor, em frente, onde se encontram as nossas telas de computador, percebemos que a tal máquina de controle de pensamentos, o “Cérebroscópio”, já foi construída. E sem que as pessoas tenham consciência, porque tal controle é baseado na ignorância e na ilusão de liberdade. A máquina de controle de pensamentos foi colocada dentro de nossas casas e nós a tratamos bem, temos apreço por ela, nos sentimos livres perante ela, achando que agora sim, temos liberdade de expressar nossos pensamentos e idéias. E somos muito, muito felizes com nosso “Cérebroscópio”. Passamos a lutar por nossa liberdade de expressão com mais afinco do que por nossa própria existência física. E ao mesmo tempo nos sentimos poderosos, no controle de tudo, um poder também ilusório. E a liberdade de expressão, uma bandeira tão suja e perigosa quanto qualquer outra quando em mãos “erradas”, passou a ser empunhada por todos, sem que saibam exatamente do que se trata.

E essa ilusão de liberdade e de poder são o alimento, o combustível dessa máquina que é muito mais forte e poderosa que qualquer instrumento de tortura usado por qualquer ditadura existente no mundo, pois nos retira o maior dos bens existentes e inexpugnáveis, que é nosso pensamento. Nas torturas físicas impostas por carrascos durante ditaduras, caso o torturado suportasse a dor e não falasse, nenhum pensamento dele era retirado, pois não existe forma de se retirar um pensamento ou uma informação de dentro da mente de alguém, a não ser que este mesmo o conte.  Por mais ambíguo que possa parecer, a sociedade humana é alicerçada nesses dois pilares, liberdade e poder, e a ilusão de ambos é o que a mantem de pé. 

Com a chegada das chamadas redes sociais, essas máquinas, os “Cérebroscópios”, finalmente tomaram forma. Elas nos instigam a declinar nossos pensamentos, o que fazemos, do que gostamos e não gostamos. Instigam-nos a “Compartilhar” pensamentos, idéias, gostos, fotos familiares e a falar mais e mais sobre nossa personalidade, família, trabalho. Enfim, nos instigam a expor nossos pensamentos mais profundos nos dando a ilusão de que desta forma estamos interagindo com nossos “amigos”, que estamos exercendo nossa liberdade de expressão. A pior forma de escravizar um ser humano é fazendo-o acreditar que não é uma prisão que o cerca, mas sim a mais total e absoluta liberdade. Sem a presença física da grade e do instrumento de tortura, e acreditando estarmos livres, corremos na direção a que querem que corramos.

E é assim, exatamente assim, que funcionam essas redes sociais. Normalmente as caixas de textos onde digitamos nossas mensagens têm o título: “No que você está pensando?”, quer mais direto que isso? E mesmo o que não tenham isso escrito é totalmente clara essa intenção. O “Twitter” foi criado exclusivamente para que se exponham principalmente pensamentos, mas limitando-os a 140 caracteres, o que ensejou algo onde se usam palavras curtas e abreviações ininteligíveis, restringindo mais e mais a capacidade de cognição, de raciocínio, resultando assim numa redução paulatina da inteligência humana. Muitas pessoas defendem que o que estaria acontecendo seria uma evolução natural da língua. Seria uma nova língua, ou a “Novilíngua”, mesmo?

Agora, já pararam para pensar como essas empresas, com estruturas milionárias e centenas de funcionários se sustentam? Prestaram atenção que no Twitter não existe propaganda, por exemplo. E que no Facebook, embora ela exista, não seria suficiente nem para pagar o consumo de eletricidade da empresa? De onde vem esse dinheiro, então?

Um “amigo” postou uma música, uma frase, um trecho de filme e clicamos no botão “Curtir” e “Compartilhar”. Com estes simples gestos, juntamente com informações pessoais postadas no “Perfil”, está sendo construindo um imenso painel sobre cada um de nós. Cada pensamento exposto, cada foto, com quem ficamos, quem amamos, nossos bichos de estimação, nossos gostos, manias, desejos, conceitos e preconceitos, são pedaços de um quebra-cabeças gigantesco cujas peças vão se juntando. E em algum tempo aqueles de posse dessas informações conhecerão nossas existências melhor que nós mesmos, melhor que nossas mães e esposas ou maridos, pois com certeza, muitas informações que ali postamos nem a eles confessamos.

E daí. Podem alguns pensar. “Dane-se! O que de importante tem em minha vida que os interesse?” Todas as vidas de todas as pessoas interessam a eles partindo-se do fato de que estamos em uma sociedade brutalmente capitalista e que todos, absolutamente todos, precisam consumir. Então, todas essas informações a respeito de cada de um de nós são armazenadas em enormes bancos de dados e depois vendidas a grandes corporações que assim sabem exatamente o que gostamos e, portanto podem nos convencer a comprar aquilo que “precisamos”. Além disso, essas informações podem ser colocadas à disposição de políticos inescrupulosos com o intuito de manipulação, e imagine a quem mais possa ter interesse em saber o que pensam e do que gostam milhões de pessoas.

A falsa sensação de liberdade, instigada por pessoas cujo único interesse é o de poder, nos transforma em escravos muito mais dóceis e submissos que qualquer máquina de tortura jamais criada. O “Cérebroscópio” já foi construído e nós o alimentamos com nossos pensamentos, e assim fazendo abrimos todas as portas para que os pensamentos dos poderosos nos sejam impostos. E não pensamos mais, apenas pensamos que pensamos… E isso não é uma “falha na “Matrix”. É real.

15/2/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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