Crônica – O Cigarro e a Poesia

Muita gente reclama que eu escrevo só bandalheira, que eu reclamo demais e faço apologia ao cigarro. Faço apologia ao sexo e faço apologia a poesia. Mas ultimamente ando até um tanto calmo, nem tenho escrito tanta bandalheira, não. Elas eram muito frequentes nas minhas poesias, mas como ando poetando pouco, deixei um pouco de lado. Quanto ao cigarro foi o que sobrou de vicio, porque até mesmo meu antigo companheiro Cynar eu quase não encontro mais. Os bares ficaram sem graça sem poder fumar. Em casa eu fumo, mas nunca gostei de beber sozinho. Não tem graça beber e não ter com quem contar histórias, mentiras ou não. Os bares cheios de fumaça de cigarro, com cachaça rolando no balcão e um bando de bêbados desgraçados contando suas desgraças e cornices uns aos outros e dos outros… Não tem graça boteco sem cigarro. Falta o ar. Acendo outro agora, cigarro melhora a concentração, há estudos científicos comprovando isso. E em cada texto é quase um maço de Marlboro. Uma crônica ou uma poesia e um maço de cigarros inteiro. É o preço que eu pago por gostar de escrever e de fumar. É certo que estou ganhando um pulmão podre e possivelmente um câncer no futuro, mas gosto tanto de fumar, gosto tanto do cheiro do cigarro e do cheiro da poesia, que nem me importo de apodrecer, se ainda puder escrever e fumar. Lembro agora que, ao contrário de meus companheiros de escola primaria que colocaram na boca seus primeiros cigarros porque era assim que fazia para demonstrar que agora não eram mais crianças, eu comecei a fumar por sentir o cheiro dos cigarros sem filtro que meus avós fumavam. eu sentia vontade, sentia mesmo um desejo tenso e imenso em tragar o cigarro. Tenho amigos que fumam maconha e dizem, porra, mas com o cigarro não sente-se nada, “não dá barato”. Não? Não dá a quem não sente o prazer de fumar como eu sinto. O prazer em respirar aquela fumaça, o prazer que começa no “clic” do isqueiro, na chama, no ato de acender o cigarro e vê-lo como se fosse um ser vivo brilhando no escuro. Vagalumes que se queimam, fênix que renascem no escuro. Em minhas épocas de solidão era o cigarro o meu companheiro fiel. No escuro do quarto, ele me ouvia, e como melhor amigo estava ali, do meu lado, quente e luminoso. E nos discursos e saraus, nas conversas de bar era ele que, ao ocupar minha mão não me fazia sentir embaraçado em não saber onde coloca-la. Mas agora  não existem mais saraus ou são eles tão acépticos que nem a poesia sobre o cigarro eu posso declamar. No bar é proibido, assim como nas salas de esperas de cinema, e nos proprios filmes onde os atores também são proibidos de fumar. Que graça tem um cowboy que não fuma Marlboro, um guerrilheiro que não fuma charutos cubanos, um comedor canalha que não acende seu cigarro com o olhar sorrateiro nos peitos da gostosona?  E que graça tem a gostosona que não tira os olhos dos nossos olhos do outro lado da tela, sem estar ter seu cigarro numa piteira enorme e fálica nos lábios? Não vou mais ao cinema, sem cigarro não tem graça. E nem no boteco. Aliás, prefiro mesmo é ficar aqui sentado, escrevendo um monte de bobagem e sem ter o que falar, acendo um cigarro e fico olhando o cursor piscando. E decido então falar sobre o cigarro. Faria uma poesia se ainda a poesia não fosse tão proibida quanto o cigarro. Não porque exista uma lei proibindo a poesia, mas ela também não faz mais parte do cinema, dos botecos e dos teatros. E do mesmo jeito que o cigarro, perdeu seu lugar a vícios mais lucrativos, como a acéptica hipocrisia, por exemplo. E deixem-me morrer em paz, não preciso de seus conselhos, nem do seu consolo, nem de seus remédios Então deixa eu escrever minha poesia e acender outro Marlboro. De maço. Vermelho!.

03/11/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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